terça-feira, 4 de junho de 2013

Contrastes na geografia
humana dos municípios
 Telêmaco Borba - PR

 Igreja Matriz de Ortigueira: município é o terceiro maior em extensão do Paraná

Salto Tamanduá I - São Jerônimo da Serra



          Imbaú, expressão tupi que significa beber da bica, identifica o menor município na região do Médio Tibagi, 332 km², contrastando com Ortigueira, o mais extenso – 2.342 km². Em termos de renda e população, Telêmaco Borba está no topo, São Jerônimo da Serra é o mais pobre e Sapopema tem a menor população.
           O território municipal situa-se entre os rios Imbaú e Imbauzinho, mas a cidade Imbaú não é ribeirinha: é um ponto na Rodovia do Café (BR-376). Nos primeiros anos 60, a povoação evoluiu do acampamento da Cirol, construtora da rodovia e, inicialmente, nome do lugar.
          Mais tarde principal paragem entre o norte do Estado e Curitiba, o Imbaú foi distrito de Telêmaco Borba até ser emancipado, em 1.º de janeiro de 1997. Sua população atual é de 11.270 moradores. Produto Interno Bruto (PIB): R$ 115,3 milhões (2010). O valor representa R$ 10.228 reais por habitante, 50% abaixo da média estadual.
          Ortigueira ( 2.342 km²) é também o terceiro maior município paranaense (depois de Tibagi e Guarapuava). Os primeiros colonizadores chegaram em 1900 e tinham por referência Monjolinho, um pequeno monte. A povoação passou a se chamar Vila das Queimadas, em 1921; e Ortigueira, em 1943. É provável que Ortigueira venha de urtiga, aponta Vanderci de Andrade Aguilera no Atlas Linguístico do Paraná.
          Município criado em 1951, Ortigueira tem hoje 23.100 habitantes; sua população  economicamente ativa é de 12.110 pessoas. Baseado na agropecuária, ainda é um município de baixa renda: 11.178 reais per capita anualmente, inferior à média paranaense.
          A menor população, entre os municípios no curso médio do Tibagi está em Sapopema: 6.736 habitantes. Sapopema, nome de árvore encontrada pelos pioneiros, onde a povoação teve origem com a a Estrada do Cerne, em 1936. Primeiro nome: Conserva, pela moradia de operários na manutenção da estrada. A seguir, “Vila do Pito Aceso.
          Aquilo está fervilhando, parecendo pito aceso”, comentavam. Coisa de fazer inveja ao Lajeado, vilarejo próximo, relatou o memorialista Osório Alves Vieira à Folha de Londrina. Com a promoção a distrito de Curiúva, em 1951, oficializou-se o nome Sapopema, município a partir de em 1961.
          O Salto das Orquídeas é atração turística no rio Lajeado Liso, que desemboca no Barra Grande, formando um dos principais afluente na margem direita do Tibagi.   
          Fortalecido pelas sucessivas expansões da Indústria Klabin de Papel e Celulose, Telêmaco Borba está com 71.100 habitantes; o município estende-se por 1.385 km², mas a população é quase inteiramente urbana: 97%. Conforme dados do IBGE e do Ipardes, o PIB municipal atingiu a R$ 1,450 bilhão (2010) e do total apenas 18% correspondem à agropecuária. Os restantes 82% dividem-se quase igualmente entre os serviços e a indústria.
           
         
Jeronimenses ficam
com a menor renda
         
          Cabe a São Jerônimo da Serra o mair contraste social: renda per capita inferior a um terço da média paranaense.  De 2009 para 2010, o produto interno bruto municipal baixou de R$ 88,150 milhões para 83,672 milhões, conforme o IBGE. E assim a renda per capita diminuiu de R$ 7.404 para 7.381, 64% abaixo da média do Estado.

          Em 2007, constatou-se que  68% da população correspondiam às famílias inscritas no programa Bolsa Família. Uma das comunidades mais antigas, fundada em 1854 na terra indígena, São Jerônimo está com  11.300 habitantes. Por sua extensão, divide-se entre os cursos médio e baixo do rio Tibagi.
Jesuítas, índios e minas
de sal no médio Tibagi
Paisagem em Ortigueira

Usina Mauá, em Telêmaco Borba
            No curso médio do rio Tibagi, entre o Salto Mauá (município de Telêmaco Borba) e a foz do rio Apucaraninha (município de Tamarana), a referência colonizadora mais antiga é a redução jesuítica Nossa Senhora da Encarnação, que existiu entre 1625 e 1628, na margem esquerda, até ser atacada pelo caçador de índios Raposo Tavares.
          Chegou a ter 500 famílias indígenas, produzia inclusive uvas e explorava minas de sal.
          Na então região del Guairá, domínio espanhol, os padres da Companhia de Jesus (jesuítas) estabeleceram as primeiras reduções indígenas na margem direita do Paranapanema, a partir de 1610. Entre 1622 e 1625 eles atingem o baixo e o médio Tibagi, agregando índios na margem esquerda. Nossa Senhora da Encarnação é fundada em 1625, pelos padres Antônio Ruyz de Montoya e Cristobal de  Mendoza, “em terras de Taiati, dominadas pelo cacique Pindoviiú, à margem esquerda do rio Tibagi”.
          Presumivelmente, abaixo da foz do rio Barra Grande, área na margem esquerda do Tibagi hoje município de Ortigueira. Nos mapas arqueológicos do Paraná a redução tem o nome resumido a Encarnação. “...dimosle princípio la vispera de S. Lorenzo del año de 625 y levantamos una muy hermosa cruz (…) echamos suertes sobre el nombre que avia de tener el pueblo y salio três bezes el de encarnacion” — registrou Montoya.
          Os caingangues resistiram à presença jesuítica no médio Tibagi e houve a mudança da redução para lugar mais propício à agricultura. Do vasto registro sobre a ação jesuítica para  catequizar os índios, em maioria guaranis, a fonte para esta reportagem é a síntese do professor Igor Chmyz em Arqueologia e História da Vila Espanhola Ciudad Real del Guairá (Cadernos de Arqueologia – n.º 1, 1976 – Universidade Federal do Paraná).
          Em 1627, Encarnação mudou de lugar, por dois motivos: 1 – as invasões de  índios chamados “campeiros ou coroados” — os caingangues. 2 – Havia uma “ameaça de fome”. Por essa vaga menção supõe-se que o núcleo situava-se em lugar desfavorável à produção de alimentos. Já no outro lugar, a redução não está imune aos ataques de caingangues e também de tupis. Gradativamente, os caingangues se integraram à redução e os tupis acabaram aprisionados.
          “A fertilidade da terra e o clima aprazível possibilitavam fartas colheitas”, afirmam historiadores sobre o novo lugar de Encarnação, relacionando 500 famílias indígenas. “Outro aspecto interessante dessa redução: a descoberta de minas de sal em suas proximidades.” Valiosa alternativa. Antes, “o fornecimento de sal ao Guairá era feito da longínqua Assunção”.
          Havia na província espanhola do Guairá pelo menos três comunidades ou “cidades”  (Ontiveros, Ciudad Real del Guairá e Villa Rica el Espírito Santo), que produziam artefatos de ferro e até armas de fogo, e 14 reduções jesuíticas. A alguma reduções eram circum-muradas de taipa, possuíam armas de fogo e resistiam às investidas de bandeirantes. Não há indicativos de que Encarnação estivesse entre elas.

Ataque final
a Encarnação  
          Os portugueses, que a princípio respeitavam o índio cristianizado, “devido ao vulto" da ação jesuítica, passaram a buscá-los nas reduções, “as vantagens eram enormes”, porque haviam sido treinados para o trabalho. Já entre 1923 e 1924 Manuel Preto capturava índios diretamente nas reduções do Paranapanema e baixo Tibagi, sem destruí-las, porém.
          Com três mil portugueses e 900 mamelucos, a bandeira do caçador de índios Raposo Tavares chegou ao planalto paranaense através do vale do Ribeira. Em 8 de setembro de 1628, atravessou o Tibagi e destruiu Encarnação. A seguir deslocou-se para os vales do Ivaí e do Piquiri, rumo a outras reduções e aldeias, e regressou a São Paulo em 1.º de maio de 1629, levando 20 mil índios.



segunda-feira, 20 de maio de 2013


O Tibagi na aventura
de Reinhard Maack

 Distrito de Harmonia, em Telêmaco Borba



 Ponte Rio Tibagi, na rota Ponta Grossa a Reserva

          O geocientista Reinhard Maack (1892-1969), uma das personalidades mais importantes do Paraná, vinculado ao Estado desde o seu trabalho inicialmente no Alto Tibagi, fora pesquisador de missões alemãs na África, Oriente Médio e Antártida antes de vir ao Brasil pela primeira vez, aos 31 anos de idade. Permaneceu de 1923 a 1927,  contratado pela Companhia Paranaense de Mineração e Colonização, operando no Vale do Tibagi e no oeste de Minas Gerais; depois, a serviço da Companhia Brasileira de Carvão e Ferro, do Rio de Janeiro.
          Maack retorna ao Brasil em 1930, contratado pela Companhia Agrícola e Florestal e Estrada de Ferro Monte Alegre, para medir a fazenda e avaliar o potencial diamantífero do rio Tibagi. Após a falência da empresa, em 1932, ele ainda mora numa das três casas que possui à margem do Tibagi e fornece a Samuel Klabin informações técnicas sobre a Fazenda Monte Alegre.  Nos próximos anos, aprofunda o interesse pela geologia, a fisiografia, os solos e a vegetação paranaenses, por vezes auxiliado financeiramente pela Sociedade Germânica de Pesquisas.
           Já representando importadoras alemãs de madeiras e minérios, Maack é preso em 1942, sob suspeita, porque o Brasil havia-se declarado em guerra com a Alemanha. Mas, além de não ser espião, Reinhard é proprietário e tem uma filha brasileira. O interventor Manoel Ribas manda libertá-lo, em 1944, e o convida a trabalhar para o Estado e ele ingressa no Museu Paranaense e no Instituto de Biologia e Pesquisas Tecnológicas.
          Professor da Universidade do Paraná desde 1946, ele recebe a cidadania brasileira em 1949.
          Os 12.800 quilômetros de perfis geológicos e geográficos, paralelamente à distribuição florística, levantados entre 1945 e 1953 por Maack permitiram a feitura do primeiro mapa fitogeográfico do Paraná, uma visão geral da cobertura vegetal, sua extensão, classificação, desmatamento até 1950 e as consequentes transformações. Na década de 50, Maack obteve o doutorado na Universidade de Berlim, continuou a estudar o Paraná, organizou expedições à América e África e representou o Brasil em congressos internacionais.
          Permaneceu 46 anos no Paraná, até morrer. Sua bibliografia abrange mais de uma centena de publicações. 
          “A Geografia Física do Estado do Paraná, publicada em 1968, constitui a última demonstração de força do incansável Maack. Ele, que havia escrito contribuições de fôlego para a geografia física do Paraná, ao invés de reunir os seus trabalhos anteriores ao livro, recomeçou uma tarefa como se fosse da estaca zero”, observa Aziz Ab'Sabber, professor titular de Geografia Física da Universidade de São Paulo (USP) e autor de O relevo brasileiro e seus prolemas (1964) entre outros estudos.
           Na sua busca constante, em 1961 Maack ainda descobre a última tribo indígena em estado primitivo no Estado, os xetás. Habitavam na Serra dos Dourados, entre os rios Piquiri e Ivaí.  Na madrugada de 26 de agosto de 1969, Reinhard Maack morreu, teve um infarto do miocárdio.

O interventor
“Mané Facão”

          Manoel Ferreira Ribas, que governou o Paraná por mais tempo, também é personalidade do Alto Tibagi, pois nasceu em Ponta Grossa, a 8 de março de 1873, de uma tradicional família. Tornou-se fazendeiro em Castro, mas ganhou notoriedade em Santa Maria, Rio Grande do Sul, na condição de  administrador da cooperativa dos ferroviários, que transformou em empresa, e no cargo de prefeito municipal.
          E lá estava quando Getúlio Vargas o nomeou interventor da Revolução de 30 no Paraná. Assumiu em 30 de janeiro de 1932 e permaneceu até 3 de novembro de 1945. Conhecido por “Seu Ribas” e “Mané Facão”, tal o rigor com que agia, ele interiorizou as ações públicas. A Indústria Klabin em Monte Alegre e a colonização de Londrina, pela Companhia de Terras Norte do Paraná, caracterizaram parcerias público-privadas. Manoel Ribas morreu em 28 de janeiro de 1946.


segunda-feira, 13 de maio de 2013


Do Ribeirão da Invernada
a Salto Mauá: panoramas

 Buraco do Padre, Ponta Grossa



 Estrada para Telêmaco Borba, PR-160, Rodovia do Papel


 Localidade de Harmonia, em Telêmaco Borba



          
Vila Quero Quero e Distrito Hartmann, município de Palmeira



          Entre a cidade de Tibagi e Salto Mauá (no município de Telêmaco Borba) são 104 quilômetros, que completam o curso superior do rio. O trecho é bravio, com 13 cachoeiras e meia dúzia de saltos, constatou o geólogo Reinhard Maack, indicando que são mais notáveis o Salto Grande da Conceição (15 metros de altura) e o Salto Mauá (28 metros), onde está a hidrelétrica da Klabin.
          As cachoeiras têm comprimentos entre 581 metros (Poço do Tigre) e 667 metros (Cachoeira Grande). Entre os afluentes no trecho: rios Alegre e Faisqueira, Arroio Quebra-Perna, rios Harmonia e do Capitão, na margem direita. E pela margem esquerda: rio Santa Rosa, Arroio da Conceição, o rios Imbaú e Imbauzinho.
          Ao longo do curso superior, 380 quilômetros desde a origem no Ribeirão da Invernada até Salto Mauá, o Tibagi desce de 1.060 metros para 533. A Expedição CBN constatou que no trecho inicial moradores de Ponta Grossa e cidades vizinhas têm o rio para o lazer.  “Na foz do Guaraúna, por exemplo, tem  muita gente que vai pescar, lá tem barcos a motor. É a parte do Tibagi que começa a ficar navegável”, observou Marcos Medeiros de Albuquerque. Acima, “antes de receber o rio do Salto, bem próximo ao Quero-Quero, o Tibagi é praticamente um riacho.”
          E bem mais abaixo, de Uvaia a Pintangui, se apresenta calmo e equilibrado, sem coredeirs e com as marens íngremes de arenito das Furnas”. Bravio a seguir, entrando pelo canyon ao norte do Pitangui.   
          O extrativismo, a pecuária, a agricultura mecanizada e o reflorestamento homogêneo com espécies exóticas modificam o panorama margeando o rio. “A parte que tem mais agricultura é saindo de Ponta Grossa até chegar ali perto de Tibagi”, relata Marcos Albuquerque. “De Tibagi para Telêmaco, já fica um terreno mais íngreme, então mais reflorestamento do que agropecuária,  e o que a gente nota é que a mata ciliar é inexistente ou muito pequena.”    
          O alto Tibagi já não recebe poluição industrial, mas não está completamente livre de esgotos urbanos e lixo. Tibagi e Telêmaco, urbanizações diretamente nas margens do rio, ainda apresentam deficit de coleta e tratamento de esgoto. Lixo doméstico e de atividades rurais são visíveis na correnteza lenta. Mas o índice é considerado tolerável por observadores.
          Em Telêmaco, José Carlos Santos, chefe da  Divisão de Meio Ambiente da Secretaria Municipal de Planejamento e Habitação, lembra que a seca drástica no final de 2007 fez o rio baixar e expor a sujeira. “Pudemos ver que tem muita poluição no leito. Na medida do possível, o que a gente faz é recolher parte da siujeira, mas ainda tem muito esgoto de moradores ribeirinhos ligados na água”, segundo Santos.  “Eu posso que a condição do rio ainda é boa”, avalia.


Um outro convívio
da indústria e o rio
         
          Na década de 1940, acionar a grande indústria de papel sem  poluir o rio seria impossível. Gradativamente vieram as atenuantes do impacto. Com a legislação rigorosa e a disponibilidade de novas tecnologias de tratamento, a Klabin avançou a partir dos anos 70 e 80. E cessou a poluição do rio nas décadas seguintes.
          Arthur Canhisares, diretor industrial da empresa, fala de uma sadia integração atualmente. “A Fazenda Monte Alegre hoje é uma área de 271 mil hectares. Desses 271 mil, aproximadamente 110 mil são de áreas nativas e de preservação”, informa. “E 91% dessa fazenda está baseada na bacia do Tibagi. Então, a importância para nós do rio Tibagi  é muito grande”, conclui.
          E há o parque ecológico, com 11 mil hectares, “um cridouro científico” visitado por 30 mil pessoas anualmente, segundo Canhisares. “Então, é uma relação bastante intensa entre o parque e as comunidades aqui da região.”
      

sexta-feira, 3 de maio de 2013


Indústria preservou araucária no
maior reflorestamento do mundo 



         
 Levantamentos chegaram a três milhões de metros cúbicos de araucária na Fazenda Monte Alegre em 1943, reserva suficiente para os primeiros dez anos da indústria de papel. Conífera de fibras longas, a araucária entra com 80% na composição da celulose e o eucalipto, de fibras curtas, com 20%, o processo à época. A pasta mecânica de papel-jornal, porém, é só de araucária, economicamente industrializável a partir da idade mínima entre  20 e 25 anos.
          Sendo uma árvore de longo prazo, já em 1942 a Klabin iniciara o reflorestamento com araucária no alto e médio Tibagi.
          Em 1943, as madeiras em geral já representam 49,5% do valor da exportações paranaenses e na década de 1950, o pinho – ou seja a araucária – passa a ser a madeira predominante. Com a metade dos pinheiros em idade de corte no sul do país em 1953, o Paraná põe no mercado 1,750 milhão de m³, equivalentes a 54% da produção nacional, vendida em toras, beneficiada, em laminados e compensados — estatística no livro A Madeira na Economia Paranaense, de Aída Mansani Lavalle (Grafipar/Secretaria da Cultura e do Esporte do Paraná – 1981).
          As serrarias avançam do sul para sudoeste, fazendo supor a extinção da árvore. Mas, até 1951, a Klabin já havia plantado 70 milhões de araucárias, sete mil hectares. E previa a continuidade com 20 milhões de mudas anualmente em áreas desmatadas e de campo.
          Em 1954, a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) informa que, incluindo outras essências, “o maior reflorestamento particular do mundo” está em Monte Alegre.
          Com a seca prolongada em 1963, incêndios destroem florestas e matam animais e gente. “O interior do Paraná está pegando fogo”, escuta-se no rádio em 29 de agosto de 1963. No médio Tibagi, fagulhas atravessam o rio das Antas, passando aos pinhais e eucaliptos da Fazenda Monte Alegre.
          Em 4 de setembro, as chamas se aproximam de Harmonia; preventivamente, parte da população se refugia na fábrica, há notícias de mortos em outros lugares e ao hospital chegam, procedentes de Ortigueira, pessoas queimadas. Quatro mil homens do Exército, Marinha, Força Aérea, da Polícia Militar e bombeiros entram em ação, além das equipes da Klabin e voluntários; um helicóptero orienta as unidades militares.
          “Monte Alegre bastou-se, mas nos seus arredores morreram famílias inteiras.” O fogo durou pelo menos 20 dias na região e no Estado chegou a 40 municípios durante quatro meses. 
          Arderam 36 mil hectares reflorestados na Fazenda Monte Alegre e também pinhais nativos. Das araucárias plantadas, 70% queimaram, conforme a história no livro Monte Alegre, cidade-papel. A chuva, que começou em 18 de setembro, ajudou a apagar o fogo e se constatou que aves e mamíferos silvestres morreram aos milhares.
          “Os pinheiros carbonizados permaneceram de pé, esqueletos negros num cemitério de cinzas com milhares de hectares” e o plano de autossuficiência da Klabin ficou irremediavelmente prejudicado. Mas, “dos grandes pinhais, por onde passara o primeiro fogo, restaram áreas extensas; araucárias chamuscadas resistiram, numa promessa de recuperação”.

Na cobertura de 17%
resta pouca araucária
         
          Primitivamente, a cobertura florística do Paraná cobria 164.800 km² (= 16,4 milhões de hectares): 83,7% da superfície estadual, dos quais aproximadamente a metade, 43,8% ou 7,2 milhões de hectares, de araucária.
          Atualmente, conforme o levantamento da Universidade Federal do Paraná divulgado em 2003, a cobertura arbórea nativa, que se observa em três estágios de regeneração, ocupa 17% da superfície do Estado. Acrescentando-se várzeas, campos, cerrados etc., chega a 18%. Os índices de regeneração no ecossistema da araucária totalizam 24%, contra 10% no restante. Portanto, evoluindo.
          As araucárias em estado avançado de regeneração, porém, constituem “poucos e dispersos fragmentos em franco processo de desaparecimento, por estarem sob risco de extração, queimadas, substituição etc.”  — segundo analistas da Sociedade de Pesquisa em Vida Selvagem e Educação Ambiental.


Surge Cidade Nova,
que será Telêmaco



Klabin - Telêmaco Borba

          Harmonia tem seis mil habitantes em 1951, todos ligados à Klabin e ocupando casas da empresa; a indústria atingiu o limite de empregados, mas continua a atrair gente à região na expectativa de oportunidades. Um controle rigoroso impede que áreas nos arredores sejam ocupadas pelos excedentes, entre os quais aventureiros e malandros.
          Não há favelas em Harmonia, uma cidade particular na margem direita do Tibagi, com edificações projetadas pelo arquiteto alemão Max Staudacher. A igreja, as casas em estilo europeu dotadas de lareira, o Harmonia Clube com a sede campestre à beira do rio, e o Hotel Ikapê, de categoria internacional. Em 1951 o hotel recebe o governador do Paraná, Bento Munhoz, o brigadeiro Eduardo Gomes, o jornalista Herbert Moses e diplomatas estrangeiros.
          Harmonia, porém, chegou ao limite, é preciso uma outra urbanização: Cidade Nova, projetada na margem esquerda do Tibagi e cuja expansão determinará o município de Telêmaco Borba.
          Com a escassez de habitações em perspectiva, Horácio Klabin anuncia em 1952, em reunião pública no cinema, o loteamento de 300 alqueires pela Companhia Territorial Vale do Tibagi. Surgirá uma “cidade-jardim” projetada por Max Staudacher, com setores residencial, comercial e industrial. Embora anunciado sem restrições a compradores, atenderá operários da indústria principalmente, que poderão pagar a longo prazo, sem reajuste das prestações.
          Segundo a historiadora Hellê Fernandes, só a partir de 1956 desenvolve-se a nova urbanização. Nos próximos anos, ocupantes de casas de madeira em Harmonia que queiram ocupar lotes em Cidade Nova podem levá-las, presente da Klabin.
          Cidade Nova é  um dos temas do escritor norte-americano John Dos Passos no livro  Brazil On the Move (“O Brasil em Movimento”, publicado em 1963 e cuja edição mais recente é de agora, 2013, traduzida por Magda Lopes para a Editora Benvirá.
          A convite de Samuel Klabin, John Dos Passos conhece Cidade Nova em 1936 e o que presencia não são casas de operários, mas de funcionários graduados a indústria. “Quatro das vilas mais atraentes situam-se num terraço que se projeta sobre escarpada ribanceira”, anotou Passos.  Uma pertence ao francês André Denis, escultor e arquiteto; outra ao conde Bella Thuroniy, húngaro que trabalha no Departamento Florestal da Klabin. Os outros  proprietários: Max Staudacher, alemão,  projetista da cidade; e o brasileiro Carlos Leissner, gerente da Companhia Territorial Vale do Tibagi.
          Já em 1959 é inaugurado bonde aéreo para a travessia do rio entre Harmonia e Cidade Nova, os operários já não precisam esperar ônibus a cada 20 minutos. A preço ínfimo, vão de bondinho e do alto contemplam o rio turbulento no imenso panorama.

Sede municipal
a partir de 1964

          Cidade Nova corresponde, principalmente, à finalidade de proporcionar habitação aos operários. Fora de seus limites, porém, expande-se a ocupação de outras áreas, cujas populações carecem de infraestrutura. Cogita-se a criação do município em 1960.
          Em 16 de outubro de 1961, é criado o o distrito administrativo de Cidade Nova, no município de Tibagi. O nome Cidade Nova é substituído por Telêmaco Borba, município criado em 5 de julho de 1963. A instalação se dá em 12 de março de 1964, com a posse do prefeito, Péricles Pacheco da Silva. 
          Denomina-se em homenagem a quem foi desbravador, revolucionário e deputado tibagiense por mais tempo. E Polybio Cotrim faz uma poesia.
         
            Cidade Nova! Meu torrão amado...
           Ainda és a terra do diamante
           E do pinhal enorme, verdejante
          Unido pelas copas, alvoroçado.
          Se o teu belo nome foi mudado
          Pelo de um sertanejo bandeirante
          Mesmo assim continuas triunfante
          Com glórias no presente e no passado.
           A tua indústria sempre agigantada
          Concorreu para seres batizada
          A capital moderna do papel.
          Na lista das cidades brasileiras
          O teu nome vai ficar entre as primeiras.
          Pena é que tenhas tanto bacharel... 


Da visita presidencial à produção
de papel-jornal em Monte alegre



 Teleférico - Telêmaco Borba






            Licenciado pelo governo federal, o engenheiro Luiz Augusto da Silva Vieira comanda a implantação da indústria de papel em Monte Alegre, onde o presidente da República, Getúlio Vargas, e o interventor no Paraná, Manoel Ribas, chegam ao entardecer de 25 de janeiro de 1944. Caracteriza-se uma parceria público-privada, que atingirá o objetivo em 1947. 
          Recebidos com banda de música ao desembarcar do avião presidencial, Vargas e Ribas dão por inaugurada a recém-ampliada pista de pouso, com 950 metros, e são levados ao Hotel Lagoa, cheirando a madeira nova, com luz elétrica (gerada por locomóvel) e quartos com banheiros privativos. O presidente dormirá na residência de Vieira, seu amigo, e a comitiva permanecerá quatro dias em Monte Alegre.
          Submarinos alemães tinham afundado navios mercantes e só uma máquina de celulose havia chegado completa, cuja montagem por um técnico norte-americano o Presidente acompanha. Está em montagem na hidrlétrica a primeira unidade geradora (14.500 KVA) e avança a construção da fábrica,  despontando a maior chaminé da América Latina: 96 metros de altura.
           Prevista para 1943, a produção de celulose começa em 1945, experimentalmente, e se torna regular em junho de 1946. 
          Março de 1947: a Klabin está produzindo papel para a imprensa, “após vencer dificuldades e resolver problemas julgados insuperáveis”. Celebração mais genuína se dá em 27 de setembro de 1947: “Toda a edição de hoje do Jornal do Comércio é (...) em papel nacional fabricado pelos industriais brasileiros Klabin e irmãos em sua grande organização de Monte Alegre”, informa o próprio jornal, editado no Rio de Janeiro e que está completando 120 anos. Pela efeméride,  parecia aos diretores do jornal ainda mais auspicioso ver o Brasil entre “os poucos países capazes de produzir em grande escala papel para a sua imprensa”.
           Inicialmente, Monte Alegre fabrica 60 toneladas de celulose-sulfito e 100 toneladas de papel-jornal por dia, industrializando entre seis mil e sete mil pinheiros por mês. E já entra na fase de reajustes de máquinas e outras correções que eliminem defeitos no papel-jornal apontados pela clientela. Em dois anos, embarca 10.500 toneladas de celulose, em 518 vagões; e 9.200 toneladas de papel em 517 vagões, usando a estação ferroviária em Piraí do Sul.
          Getúlio Vargas já não é o presidente da República, fora “derrubado”em 1945. Mas, em 1953, voltariá a Monte Alegre, no segundo mandato presidencial.