quinta-feira, 17 de janeiro de 2013


E surgiu em Carambeí
a primeira cooperativa
 Widson Shwartz


Castrolanda

 Foz do Rio Pitanguí

 Foz do Rio Pitanguí

          Aproximando-se o fim do contrato pelo qual se tornarão proprietários dos bens acumulados em 10 anos, pagos com produtos agropecuários para alimentar os trabalhadores na construção da Estrada de Ferro São Paulo Rio Grande, os holandeses em Carambeí constituem a empresa De Geus e & Cia., no início de 1925. E passam a vender o queijo também na cidade de São Paulo, representados pela firma do cônsul holandês, o sr. Berkhout.
          E por sugestão do cônsul, o queijo recebe a  marca Batavo, referência a uma tribo germano que, no inicio da era Cristã, habitava o delta do rio Reno, nos países baixos, origem dos holandeses em Carambeí. 
          Logo, em 1.º de julho de 1925, De Geus & Cia. é sucedida pela Sociedade Cooperativa Holandesa Batavo, supostamente a primeira cooperativa no Paraná, inspirada na experiência que Gerrit Los, um dos fundadores, tivera na Holanda. São 14 sócios. Empréstimo de 12 contos de réis concedido pelo fazendeiro Juca Pedro permite a construção de uma nova fábrica de queijo. Nos próximos anos a  Cooperativa tem “altos baixos” e  atinge o equilíbrio.
           Morre em 1929  Art Jan de Geus, que havia chegado em 1913, trazendo capital que permitiu financiar a compra de 100 vacas para os novos colonos. Em 1930 o Brasil é atingido pela depressão mundial, causada pela quebra da Bolsa de Nova York. Agravante; sucedem-se no país as revoluções de 30 e 32, que fecham a divisa com São Paulo, impedindo a Batavo de chegar ao seu mais importante mercado.
          A colônia entra em crise. Tentativas de convencer conterrâneos a saírem da Holanda para Carambeí trazendo capitais não deram certo. Só em 1933 o governo da Holanda envia um representante.
          Provavelmente informado sobre a fracassada Colônia Gonçalves Júnior, em 1911, o enviado  da Holanda tem a melhor das impressões em Carambeí. Se em 1911 fora preciso repatriar quase todas as famílias, em 1933 Carambeí afigura-se ideal para receber mais holandeses. E apoio governamental.
          Entre 1934 e 1940, chegam a Carambeí sete famílias holandesas, entre as quais reemigrantes da Indonésia. Ainda em 1940, a sociedade muda o nome para Cooperativa Agropecuária Batavo Ltda., com 17 sócios holandeses e alemães. A Batavo compra, da Brazil Railway, os restantes cinco mil hectares da Fazenda Carambeí.
          “Os holandeses quebraram o tabu da inutilidade agrícola dos Campos Gerais” e abriram caminho para novas e bem-sucedidas colonizações, resumiu o historiador Alberto Elfes, em Campos Gerais – Estudo da Colonização (edição do Incra – 1973). Eles atingiram a maior produtividade de leite no país, com o rebanho de origem holandesa aprimorado nos Estados Unidos. Na década de 70, levaram a soja, o trigo, o milho e outras culturas a serem predominantes em seu âmbito. Atualmente, a Batavo está em 27 municípios, com 670 associados, e o faturamento em 2012 passou de um bilhão de reais.  Mantém-se a suinocultura e sua industrialização. Já os produtos lácteos, sinônimo de Batavo na memória brasileira, constituem uma divisão do conglomerado Brazil Foods.

Batavo e Castrolanda

          Castrolanda associa Castro – o município – e Holanda, país dos colonos. Trazendo máquinas agrícolas e gado leiteiro, as primeiras cinco famílias chegaram em 30 de novembro de 1951. Logo, em 1954, as Cooperativas Batavo e Castrolanda fundam a Cooperativa Central de Laticínios do Paraná (CCLP), para industrializar e vender a produção agropecuária.
          Em 2012, a Castrolanda, a Batavo e a Agropecuária de Arapoti iniciam a construção do frigorifico de suínos, em Castro. A previsão é de faturar R$ 520 milhões anuais já na primeira fase, a se inaugurar  em novembro de 2013. Processará inicialmente 2.300 suínos por dia e colocará no mercado tender, mortadelas, bacon, presunto etc.
    

A ferrovia prosseguiu e os
holandeses permaneceram
Widson Schwartz
 O solo de Carambeí era “magro” e o historiador Alberto Elfes concluiria que a permanência dos holandeses
 se deveu às “altas qualidades humanas”

 “Algumas vilas dessa trilha que hospedavam os tropeiros tornaram-se mais tarde estações da linha de Farquhar” 

          Numa área vendida pelo governo brasileiro a preço subsidiado, alemães e holandeses fundaram, em 1908, a Colônia Gonçalves Júnior, em Irati, inviável por causa das densas florestas de araucária adjacentes, o solo pouco fértil e os ataques de insetos e mamíferos silvestres.
          Grassava o tifo e a malária. Sem assistência, a colônia ganhou a fama decemitério de mulheres”, abandonada em 1911, quando o governo da Holanda repatriou a maioria de seus imigrantes, que eram 48 famílias e 282 pessoas. Coincidentemente, naquele ano, a Brazil Railway Company daria início à construção do subtrecho Castro-Ponta Grossa da Estrada de Ferro São Paulo-Rio Grande (SPRG), oportunidade para que remanescentes da fracassada colônia fossem bem-sucedidos na antiga Fazenda Carambeí. 
          Em 7 de setembro de 1911, a Brazil Railway e três holandeses – Leendert, Verschoor e Vrisman – assinam contrato em Carambeí. A fazenda passara ao domínio da ferrovia. Objetivo: produzir para alimentar os trabalhadores na construção, oferecendo a Brazil Railway os insumos indispensáveis. Condições aos colonos: pagar 200 mil réis em garantia do contrato e ter capital de 1 conto de réis, cada um, para se manter até a primeira colheita. Assim se tornaram arrendatários (cada um)  de três vacas, uma casa, um lote de 25 hectares e o direito de utilizar 70 hectares de pasto natural. O número de vacas poderia se elevar a 9 já no primeiro ano.
          O contrato tem prazo de 10 anos, estabelecendo que, ao término, cada colono receberá a  escritura dos bens acumulados, no valor de 8 contos e 900 mil réis, equivalentes a 12.050 marcos, que deverão ter pago em produtos. As prestações, anuais, não excederão a metade do valor dos cereais, animais e leite fornecidos. 
          Os envolvidos podem trabalhar na construção da ferrovia, também, e a maior parte dos alemães e poloneses que aderiram à colônia, ao término do primeiro contrato preferem seguir os trilhos, ou pela certeza do trabalho nos trechos adiante de Ponta Grossa ou pela expectativa de conseguir terras melhores. O solo de Carambeí eramagro” e o historiador Alberto Elfes concluiria que a permanência dos holandeses se deveu àsaltas qualidades humanas: , tenacidade e, inclusive, teimosia”.         
          Em 1913, as famílias holandesas em Carambeí aumentaram para 12, entre as quais as de Art Jan De Geus, Hendriki Arms e de Jacob Voorsluys, “que conhecia o segredo de se fazer bons queijos”. Quando a Brazil Railway encerra o seu laticínio, em 1916, os holandeses passam a fabricar nas chácaras o queijo e a manteiga, cujo mercado inicial é Ponta Grossa. E a colônia cresce sem nenhuma ajuda financeira ou técnica, nem assistência cultural do Brasil e da Holanda. Situa-se no município de Castro, entre os rios Iapó e Pitangui, afluentes do Tibagi.      

Ferrovia no antigo
caminho das tropas

          O traçado da São Paulo-Rio Grande “seguia em grande parte a trilha usada desde o Brasil Colônia pelos tropeiros para levar bois e mulas desde o Rio Grande do Sul até (…) a feira anual de gado em Sorocaba, no sul do Estado de São Paulo”, relata  Charles Gauld na biografia do megainvestidor norte-americano Percival Farquhar, que formou a Brazil Railway para construir e administrar ferrovias. “Algumas vilas dessa trilha que hospedavam os tropeiros tornaram-se mais tarde estações  da linha de Farquhar.”
          Autorizada ainda no Império, a construção da SPRG estacionara entre Itararé e Jaguariaíva e Farquhar comprou de um grupo francês os direitos, em 1906. Empolgara-se com um fato inusitado: estavam inclusos na concessão da ferrovia 2,4 milhões de hectares no Paraná e Santa Catarina. Pelo clima temperado do sul, Farquhar imagina colonizá-los com europeus.  

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013



Contrastes do Tibagi
de Palmeira a Uvaia 
Widson Schwartz


 Junção dos rios Guaraúna e Tibagi

Prainha entre Ponta Grossa e Teixeira Soares

  
            É nas cercanias das colônias, estabelecidas no Império e nos primeiros anos da República, que o rio Tibagi começa a crescer em volume. Do Caminho das Tropas à era das rodovias e automotores,  quem avista atualmente a placa no rio Quebra Perna na BR-376, está identificando um afluente do Tibagi. Conforme o Atlas do Estado do Paraná editado em 1987, os primeiros tributários são o Guabirotuba e o Cantu, na margem esquerda, ainda no município de Palmeira; a seguir, o arroio Quebra-Perna à direita, em Ponta Grossa.
          Na Geografia Física do Paraná, anterior ao Atlas, Reinhard Maack menciona o rio do Salto entre os afluentes em Palmeira. Comparando-se as duas publicações, há nomes diferentes, talvez levando em conta ou certificações ou referências mais em voga ultimamente.
          A produção do Atlas envolveu 17 instituições entre secretarias e empresas governamentais (Estado e União), os Departamentos de Geografia e História da Universidade Federal do Paraná (UFPR) e o então Instituto de Terras, Cartografia e Florestas (ITCF), editor juntamente com a Secretaria de Estado da Cultura. Edição patrocinada pelo então Bamerindus (“o banco da nossa terra”), “retrata com fidelidade todas as características paranaenses” e inalterado em termos hidrográficos nos anos 2000, à exceção de uma nova hidrelétrica e intervenções predatórias do homem.  Politicamente, o número de municípios evoluiu de 316 para 399.
          Uvaia é a primeira comunidade ribeirinha no Alto Tibagi, adiante do trecho inicial de 45 quilômetros do rio. Esse trecho, em que já aparecem corredeiras, contrasta com o seguinte, ao sul de Ponta Grossa. Aqui o rio se mostra sinuoso  e desprovido de degraus, num panorama alterado pelos reflorestamentos e a extração de areia. Antes de atingir Uvaia, distrito ponta-grossense, o Tibagi recebe mais três afluentes na margem direita: o Guaraúna, o Pau Furado e o Imbituva, assim nominados no Atlas.
           Acessível pela BR-373, Uvaia situa-se na divisa de Ponta Grossa e Ipiranga; seu panorama é uma mescla de mata ciliar, preservada rio abaixo, com áreas de agricultura mecanizada nas cercanias. Os Campos Gerais detêm ótimos índices de plantio direto na palha e de produtividade das principais commodities agrícolas no sul do país.

Lenda da Cecília
no livro de Zélia


          Best-seller escrito por Zélia Gattai, com sucessivas tiragens (Editora Record) na década de 1980 e que deu enredo à série de televisão homônima, “Anarquistas, graças a Deus” inclui um relato envolvendo o compositor Carlos Gomes e D. Pedro II com a Colônia Cecília. Sabe-se que é uma lenda.
          Mas é verídico que Argía e Francisco Gattai, avós paternos de Zélia, deixaram a Itália para viver na Colônia Cecília, com quatro filhos menores, até que se mudassem para São Paulo. A autora baseia-se em relatos que ouviu em família e nas “respostas às suas indagações” que encontrou em “Colônia Cecília”, livro de Afonso Schmidt publicado em 1942. “Na casa dos Gattai [na colônia] ardia fogo, uma fumaça azul saía alegremente pela única janela”, consta no livro entre outras citações.
          Zélia atribui ao pai, Ernesto Gattai, a narrativa da lenda segundo a qual estimulado por Carlos Gomes, de quem se tornara amigo em Milão, Giovanni Rossi fez chegar uma carta a D. Pedro II. Aproveitara a visita de Sua Majestade àquela cidade italiana. De volta o Brasil, D. Pedro lê a carta e um livreto com a perspectiva da colônia, sensibiliza-se e oferece os meios de realizá-la.
          Na realidade, Rossi decidiu-se já na República, quando frustrara-se uma tentativa na Itália. E nos ensaios que escreveu, traduzidos no livro “Colônia Cecília e outras utopias”, não menciona D. Pedro II, nem contatos no tempo do Império. Falta saber qual a extensão da Colônia Cecília, que abrangeria espaços abandonados por outros imigrantes. Segundo Cândido Muricy, a Cecília surgiu  onde existira a Colônia Adelaide. 
           


quarta-feira, 26 de dezembro de 2012


A breve e utópica
Colônia Cecília
Widson Shwartz


  Nascente Rio Tibagi - Município de Palmeira

 Vila Quero Quero em Palmeira
Nascente, no Município de Palmeira, interior da Fazenda Bugio




          Coincidindo com a República, surge uma colônia comunista-anarquista em Palmeira, proposta que fracassara na Itália, entre 1887 e 1889. Em Palmeira, sete italianos liderados por Giovanni Rossi fundam a Colônia Cecília, onde “as relações sexuais livres e a completa autonomia individual” deveriam ser correspondidas pela “solidariedade econômica e a liberdade política”.
          Chegaram em abril de 1890: o casal Cattina e Aschile Dondelli, Evangelista Benedetti, Lorenzo Arrighini, Giacomo Zanetti e Giovanni Rossi. Cattina é a única mulher.
          Do grego clássico, anarquia significa “Estado sem líder”, daí a filosofia de que o anarquismo socialista libertará o homem do Estado opressivo, colocando-o em relações igualitárias e livres. Na Colônia Cecília, porém, guiavam-se pelo outro sinônimo de anarquia: desordem. Eram operários urbanos sem nenhuma experiência de agricultura, relatou Giovanni Rossi. 
          Se alguém quisesse aprender a capinar, ouvia a resposta: “Aqui não se pode ensinar, cada um  faz como bem entende”. Justificava-se qualquer capricho ou excesso: “Em homenagem à anarquia, faço o que quero”. Rossi sentenciou a impossibilidade de doutriná-los: “Pobre anarquia, como, naquela época, a sua concepção ficou rebaixada”.
          Cecília atinge 150 moradores, em maio de 1891. “Essa aglomeração repentina foi um desastre”, palavras de Rossi. Não vieram agricultores e “os meios de subsistência continuavam absolutamente insuficientes”; ainda precisam comprar alimentos a crédito no comércio e a renda vem do trabalho nas estradas do governo. Em julho de 1891, as famílias que se haviam fixado primeiro decidem partir, levando a parte do capital social a que têm direito. Alegam descontentamento com a mescla da comunidade, incluindo oportunistas, até assassinos; e que pretendem reconstituir a colônia entre outro lugar, “com melhores elementos”. Em dezembro de 1892, os habitantes diminuíram de 150 para 64.
          Pela visão do contemporâneo Cândido Muricy, na colônia “havia professores, artistas, operários e, sobretudo, vagabundos. Sem o mínimo conhecimento de agricultura, queriam tão somente uma vida sem esforço, (...) seduzidos pela (...) romanesca miragem: Cecília”. Exceção eram os jovens idealistas, segundo Rossi. Indicando a colônia, flutuava ao vento a bandeira preta e vermelha, sobre uma grande palmeira. “Frequentemente de estômago vazio, apoiados na enxada e olhar na palmeira”, aqueles jovens idealistas diziam: “De um pouco de polenta e um pouco de ideal, vive-se”.
          Qualquer proposta anarquista implica “a destruição espontânea da família e a assimilação do amor livre”, até para “emancipar a mulher da despótica supremacia masculina”, segundo Rossi. As mulheres, com quantos homens desejassem e se houvesse filhos, seriam comunitários. Mas, na colônia, o amor livre se restringiu a dois casos; as mulheres eram poucas e para não cedê-las ao coletivismo, as famílias partiam. Segundo Cândido Muricy, a “crise” obrigou Rossi a introduzir prostitutas.
O melancólico fim
de uma identidade   
          Falta saber quanto durou a Colônia Cecília e quando terminou, tendo sido determinante o furto do capital social, 50 contos de réis. Um casal recém-integrado à comunidade fugiu com o dinheiro. Houve, porém, “uma tal variedade de causas [para o fracasso] que é impossível enumerá-las”, escreveu Rossi.
          “Colônia Cecília e outras Utopias” é o livro que contém os ensaios de Giovanni Rossi, editado em 2000, pela Imprensa Oficial do Paraná, tradução de Marzia Terenzi Vicentini e Miguel Sanches Neto.  “Da Colônia Cecília sobrou pouco, tanto histórica quanto fisicamente, mas ignorar a sua existência e o seu papel na definição de uma identidade paranaense seria um erro”, afirmam os tradutores. Outra fonte é “Viagem ao País dos Jesuítas”, editado em 1975, também pela Imprensa Oficial. O autor, José Cândido da Silva Muricy, participou de estudos para a colonização nos Campos Gerais.

           










Visões de Palmeira no alvorecer republicano  
 Widson Shwartz


 No alvorecer republicano, Palmeira “ostenta (…) ampla praça retangular cingida por palmeiras, no meio da qual ergue-se a igreja”, descreveu-a em abril de 1890 o italiano Giovanni Rossi, que ia fundar nova colônia

Nascente do Rio - Fazenda Bugio Palmeira
  

            Com a queda da monarquia, em 15 de novembro 1889, a República encontra um palmeirense na presidência da Província do Paraná. “Foi a cidade de Palmeira a sede do poderio político liberal na Província durante o Império, sob a chefia do conselheiro Jesuíno Marcondes de Oliveira Sá”, escreveu o contemporâneo José Cândido da Silva Muricy.
            Nascido em Palmeira, Jesuíno distinguira-se no reinado de Pedro II, desempenhando entre outras funções a de ministro da Agricultura, Comércio e Obras, tendo recebido o título de conselheiro; o de barão lhe foi negado, desde que fora posto sob suspeita de ter influído na venda de terras imprestáveis para a colonização.
            Exercendo a presidência da Província quando é proclamada a República, Jesuíno comunica ao marechal Deodoro da Fonseca, chefe do novo poder, que o Partido Liberal do Paraná servirá a Pátria com o governo provisório. E dá por encerrada a sua tarefa, passando a administração da Província ao comandante da Brigada do Exército.
            No alvorecer republicano, Palmeira “ostenta (…) uma ampla praça retangular cingida por palmeiras, no meio da qual ergue-se a igreja”, descreveu-a em abril de 1890 o italiano Giovanni Rossi, que ia fundar uma nova colônia. “Em volta [da praça], asseadas casinhas. Poucas ruas compõem esta jovem cidadezinha” , no dizer de Rossi, que lá encontrou telefone. “Há um hotel, uma sala de bilhar, um clube literário, uma sociedade de amadores de teatro, uma fábrica a vapor para a preparação da erva-mate e várias casas de comércio.”
             Instalara-se, recentemente, o escritório da Inspetoria de Terras e Colonização em Palmeira, para supervisionar novos assentamentos coloniais também na banda do rio Iguaçu.
            “Supérfluo dizer que Palmeira tem um correio e um posto telefônico”, anotou Rossi, embora a telefonia ainda fosse rara adiante de Curitiba.
            O médico em Palmeira, o italiano Franco Grillo, recebe o mais alto conceito de Rossi: “bom, honesto” e “benemérito da ciência pelas informações e coleções  [presumivelmente da flora regional] que tem enviado à Sociedade Geográfica Italiana e ao Museu Cívico de Ciências Naturais de Gênova”. Há 17 anos estava o dr. Grillo no Brasil e acolheu Rossi e os outros conterrâneos pretendentes à nova colônia “como irmãos, porque filhos da mesma terra e da mesma ideia”,declarando-se republicano porém socialista em economia.
            “As terras em volta de Palmeira são constituídas por colinas docemente onduladas, em parte apenas cobertas de capim – e esta parte chama-se campo –, em parte coberta de matas”, segundo Rossi, que faz outras classificações no panorama rural. “As matas mais próximas da cidade são jovens e recebem o nome de capoeira; as mais distantes, como Santa Bárbara, onde irá se estabelecer a nossa colônia social, são virgens, mas de uma virgindade relativa.”

Simpática e pitoresca,
à margem do lajeado 

            Outra descrição de Palmeira na primeira década republicana se deve ao sociólogo, militar e explorador Cândido Muricy (1863-1943). “Construída à margem de um lajeado, afluente do Caniú [ou Cantú], por sua vez afluente do Tibagi, Palmeira sobe a encosta em doce declive de uma extensa e bonita coxilha, tendo porém, seu núcleo principal na baixada”, despontou aos olhos de Muricy provavelmente em 1896 , um ano antes de ser elevada a município, desmembrado de Ponta Grossa.
            “É alegre e pitoresca a cidade, a única estação da via férrea, dessa categoria, de Curitiba a Ponta Grossa. Seu casario é de estilo português, pesado e desgracioso, sem ser no entanto do estilo dito colonial, tão em voga  hoje nas construções citadinas”, observou Muricy.  “Seu conjunto, entretanto, não deixa de ser alegre e simpático.”

  


Ereta a vila no Iapó, o povo
dá “vivas” à  rainha Maria I 
Widson Shwartz
     
Situa-se Castro “numa colina alongada que se estende do sul ao norte até o rio Iapó”, visão de Saint-Hilaire em 1820


          Embora Saint-Hilaire mencione apenas Castro, o lugar se denominava Vila Nova de Castro quando de sua passagem; de freguesia, elevara-se a vila em 24 de janeiro de 1789, em homenagem a Martinho de Mello e Castro, ministro dos Negócios Ultramarinos de Portugal. As terras paranaenses estavam na jurisdição da Ouvidoria e Comarca de Paranaguá, Capitania de São Paulo, governada por Bernardo José de Lorena.
          Historiadores mencionam uma “ouvidoria gigante”, Paranaguá, abrangendo também partes de São Paulo, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, alcançando a fronteira com a Argentina.
          Quando o ouvidor, Francisco Leandro de Toledo Rendon, declarou ereta a Vila Nova de Castro, “o povo prorrompeu em estrepitosos vivas à rainha, D. Maria I, e se ouviram descargas [das armas de fogo] pela tropa de cavalaria”.
          O toque dissonante com o advento da vila foi a designação do sargento-mor, o paulista Miguel Pedroso Leite. Ostentando a patente de capitão da guarda, ele tinhas péssimos antecedentes em outras capitanias; sua ficha corrida incluía cumplicidade em homicídio. Nomeado assim mesmo, assumiu ainda em 1789 e arvorou-se em autoridade absoluta, cometendo todo tipo de arbitrariedade. Extorquia moradores e até ameaçou rapazes, para induzi-los a casarem com suas filhas. “Foi a tal ponto o terrorismo que a população, de medo, já não concorria à missa.” A Câmara de Oficiais da Vila decidiu enfrentá-lo, e conseguiu que fosse removido em março de 1791. Restou na Câmara “formidável representação contra este Pedroso”.
          Situa-se Castro “numa colina alongada que se estende do sul ao norte até o rio Iapó”, visão de Saint-Hilaire em 1820. A leste da vila, onde a topografia é menos elevada, o viajante observou o predomínio das pastagens e uma orla de araucárias contornando o banhado.  No lado oeste, “o mais montanhoso e pitoresco as araucárias coroam as colinas”. Debaixo dessas árvores majestosas existem algumas choupanas e um vasto tabuleiro de relva alcança a cidade.
          “O rio Iapó serpenteia aos pés das colinas a oeste” tendo nas margens arbustos repletos de líquens esbranquiçados, que parecem barba de velho. O mais abundante é o pau-de-sebo, uma leguminosa, cuja madeira é muito mole e da qual “se comem os frutos chamados vulgarmente cambuí”.
          Em 1820, Castro tem uma centena de pequenas casas de taipa e no distrito inteiro cinco mil habitantes. Pessoalmente Saint-Hilaire constatou o número de habitações, que formavam três ruas e tinham semelhança com as dos camponeses de Sologne, na França. “Três ou quatro comerciantes, mulheres da vida [prostitutas], alguns operários formavam, mais ou menos, toda a população permanente da vila”, segundo o visitante. “A instrução pública é absolutamente nula.”
          Há uma produção de milho, feijão, arroz e trigo, “mas os habitantes da campanha pensam menos em cultivar a terra do que em criar animais de chifres e cavalos”. Além do mercado, a criação de animais exige “cuidados pouco variados”. Uma evolução teria início, porém.   

Elevação a cidade
e nome definitivo

          Rocha Pombo assinala “verdadeiro e admirável progresso de Castro” no período que vai de 1820 a 1860. “Em 1840 se levantou uma nova ponte sobre o Iapó (…) e o vigário da paróquia, padre Inácio de Almeida Faria e Souza, benzeu a sacristia da nova matriz em construção.”
          Nas primeiras décadas de 1800 as terras paranaenses constituem a Comarca de Paranaguá e Curitiba, a seguir 5.ª Comarca de São Paulo. São estabelecidos o “termo” – ou jurisdição – de Castro, em 1842, e a comarca em 1854. Em 21 de janeiro de 1857, com a transformação legal da vila em cidade, o nome é restrito a uma palavra: Castro.
          Assim a admirável evolução, assinalada por Rocha Pombo, desde os primórdios numa redução jesuítica fundada em 1627, ou perto da barra do Iapó ou na Fazenda Pitangui.


  

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Rodovia do Café
Nascente do Rio Tibagi

 Rodovia do Café
Nascente do Rio Tibagi

Estrada Fazenda Barbosa
Foz do Rio Pitangui  - Tibagi

Vila Quero-Quero