domingo, 6 de outubro de 2013

(2 de outubro de 2013 – Widson Schwartz.)





Uma época de rios e gente intoxicados





            O modelo agrícola americano no Brasil implicou a poluição das águas pela erosão do solo, agrotóxicos e a agroindústria. Despontou a rotação soja-trigo, com o atrelamento do setor primário à indústria de máquinas e implementos e à de agroquímicos. “Cambé não beberá água do rio Tibagi”, afirmou nos primeiros anos 80 o então prefeito, Luiz Carlos Hauly, ante a perspectiva de captação para abastecer Londrina e a sua cidade.
            No Paraná, a soja evoluiu de apenas cinco mil hectares para 304 mil na década 1960-1970 e chegou a 2,4 milhões de hectares em 1980. O governo federal cogitou, na década de 70, a autossuficiência em trigo, baseado principalmente na produtividade paranaense. Não chegaria a tanto. Mas, em 1981, o Estado colheu 1,350 milhão de toneladas, 51% do trigo brasileiro. E 35% da soja, 5,4  milhões de toneladas, colocando-se em segundo lugar.
            a participação do café paranaense na produção nacional havia recuado para 15,8%, apenas.
            A modernização com insumos abrange culturas temporárias e permanentes e o Sistema Nacional de Crédito Rural, isento de juros e correção monetária, condiciona 15% do total do custeio à compra de defensivos químicos, fertilizantes, sementes selecionadas e até a contratação de pulverização aérea (aviação agrícola).
            Uma fase de rios e agricultores intoxicados, morrem dezenas entre milhares atingidos. Documento minucioso da transformação é a Circular Iapar n.º 49  (fevereiro/1987), do Instituto Agronômico do Paraná, mencionando estatísticas do IBGE, análises do Ipardes (Instituto Paranaense de Desenvolvimento) e levantamentos da Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado. A rotação soja-trigo evoluiu de cerca de 7% da área total cultivada no Paraná em 1970 para 31,3% em 1979; o café, que ocupava 42,69% de toda a área, desceu a 30,34%.
            Tratores no período 1970-1980: nas propriedades menores de 50 hectares aumentaram de 9 026 para 35 184 (+ 290%); nas maiores de 50 hectares, de 9 593 para 44 498 (+ 364%). Total: de pouco menos de 20 mil para 79.600 em dez anos
            Sem o plantio direto e outras métodos preservacionistas que ainda viriam a se expandir, a mecanização causava a erosão do solo para os rios, geralmente desprovidos de matas ciliares.  Na década de 70, Herbert Bartz, na Fazenda Renânia, em Rolândia, e Rolf Derpsch, na Fazenda Maravilha, em Londrina, experimentavam inicialmente o plantio direto; a Embrapa-Soja ainda se estruturava e só na década seguinte o controle biológico de pragas daria os primeiros passos. Enviado pela Missão Agrícola Alemã, Derpsch integrava um programa de cooperação com Instituto de Pesquisas Agropecuárias Meridional (Ipeame), do Ministério da Agricultura, e contribuiu – a exemplo de Bartz – para a pequisa do Iapar (Instituto Agronômico do Paraná) em termos da adequação de máquinas às condições de solo.


Notificados eram só 10%
da intoxicação humana


             De 1970 a 1980, os gastos no Paraná com pesticidas nas propriedades menores de 50 hectares cresceram 276% e nas maiores, 550%, verificando-se no algodão índice de aplicação entre os mais elevados. Seguramente havia excesso, atingindo os próprios trabalhadores na agricultura em geral: 3 603 intoxicados e 73 mortos entre 1982 e 1984, relatório de Reinaldo Skalisz, da Secretaria de Agricultura.
            Referia-se, porém, somente aos casos notificados. E isso era apenas  10% das ocorrências segundo entidades ambientalistas e sindicatos de trabalhadores. Afirmava-se que no Brasil morria uma pessoa intoxicada a cada hora e meia, além daquelas incapacitadas e, assim, aposentadas precocemente.

            Segundo a Associação Nacional de Defensivos (Andef), o Brasil havia consumido 105,4 mil toneladas de agrotóxicos em 1983, das quais 21,9 mil no Paraná, segundo maior mercado depois de São Paulo, com 37,8 mil toneladas. 

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

(19 de setembro de 2013 – Widson Schwartz.)       


Tibagienses e ingleses na origem de Tamarana



         Na margem esquerda, entre os afluentes Apucaraninha e Apucarana, o município de Tamarana tem menos de 20 quilômetros beirando o Tibagi e nesta série de reportaens é o último dos 19  atingidos diretamente pelo rio. Situa-se na transição de norte para o sul, aonde começaram a chegar safristas e garimpeiros de Tibagi, São Jerônimo e Ortigueira, por volta de 1920. Safrista, o criador de porcos extensivamente.
         Evaristo Camargo, Francisco Moraes e Ibrahim Gerbes entre outros fundam a Vila de São Roque, origem de Tamarana, então no município deTibagi, e o médico Gustavo Avelino Corrêa inicia a formação da primeira fazenda na região em 1928, conforme a divisão judicial da Gleba Fazenda Três Bocas, que inclui outros condôminos. Os pioneiro, devotos do santo, ergueram a capela para a imagem.
         Caracteriza-se uma extensão da cultura tibagiense, até pela presença de ingleses. O prefeito, Leopoldo Mercer, influi para que o Congresso Legislativo estadual aprove a criação do distrito judiciário de São Roque, instalado em 20 de março de 1930, com a posse do escrivão Arlindo Araújo, procedente de Lajeado Liso (atualmente  Sapopema).  
         O prefeito Mercer descendia do primeiro inglês em Tibagi, mencionado por Thomas Bigg-Wither em junho de 1874. Aquele Mercer que se estabelecera “há pouco mas tinha prosperado tanto que já estava quase noivo da filha de um dos fazendeiros mais ricos da vizinhança”. Do casamento nasceria o futuro político e sertanista Edmundo Alberto Mercer.
         E outros ingleses chegaram à Fazenda Inhô-Ó, em São Jerônimo, um dos quais se dedicou ao garimpo no rio. Em 1935, padre Carlos Probst tem uma surpresa em São Roque: a menina de cabelos loiros, filha do inglês Guilherme Chaman, “coisa rara na região, mas explicada pela descendência do pai”.  Prosseguindo viagem, conhece um Dopplins e um Mercer. “Também a água que corria na baixada dos pastos, limpa como se fosse de mina, recebera o nome de Ribeirão dos Ingleses”, anotou padre Probst. Curioso quanto à procedência deles, “como vieram a este fim de mundo”, Probst “soube que havia antigamente na cidade de Tibagi um empresa de garimpeiros em mãos de ingleses, e daí se esparramaram pela zona sul”. Com uma ressalva: “Quanto há de verdade nisso, não pude verificar”.
         Desde 1934 a comunidade católica de São Roque estava vinculada à paróquia do Sagrado Coração de Jesus, de Londrina, razão da presença de Carlos Probst, mais tarde historiador palotino. Em 1938, São Roque e toda a região ao sul do ribeirão Três Bocas passam a integrar o município de Londrina.
         A mudança de nome se dá em 1943: Tamarana, que se relaciona à reserva indígena na área. Sugestão da  Empresa dos Correios e Telégrafos pra se diferenciar de São Roque no Estado de São Paulo. Segundo o Aurélio, Tamarana ou cuidaru é instrumento de madeira usado por índios, espécie de clava chata e esquinada.
         Em 1952 Tamarana distrito é anexado ao recém-criado município de Marilândia; a população reage e, por plebiscito, impõe a reintegração a Londrina.
         Proposta inicialmente em 1965, a emancipação se dá em 1995, após dois plebiscitos. Instala-se o município de Tamarana em 1º de janeiro de 1997.  

População rural
ainda predomina
        

         Com 469 km², Tamarana está com com 12.640 habitantes, 47,7% urbanos. Conforme o Ipardes, a economia tem a maior resultado na agropecuária, cujo valor bruto a preços básicos em 2012 atingiu a R$ 48,6 milhões; indústria, R$ 18,8 milhões; serviços: R$ 70,3 milhões. São 19 assentamentos de programas da reforma agrária no município, o que contribui para a maior  população rural, além de 1.100 índios.

         O PIB municipal chegou a R$ 147,1 milhões de reais em 2010 e a renda per capita, R$ 12.031 reais, está  48% abaixo da média estadual. Embora o índice de desenvolvimento humano seja médio, 0,621, entre os 399 municípios paranaenses Tamarana fica atrás de 386, a 12 posições do último lugar.      

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

(12 de setemnbro de 2013 – Widson Schwartz.)  

No Apucaraninha, o último ato da tragédia caingangue




         Na parte do antigo município de Tibagi que abrangia a margem esquerda do rio,  a Reserva Indígena do Apucaraninha existe desde 5 de julho de 1900, oficialmente Posto Indígena Xavier da Silva, nome do presidente do Paraná que assinou o decreto destinando-lhe a área. Primeira ocupação efetiva na região, precedendo a origem de Tamarana, por volta de 1920.
         Inicialmente com 80 mil hectares, não se sabe quantos caingangues recebeu. É o lugar do último capítulo da tragédia indígena no Vale do Tibagi, desde que José Félix da Silva iniciara a matança nos arredores da Fazenda Fortaleza, em 1800.
         Aos 90 anos de idade Alfredo Lodi recordou que tinha 11 anos de idade ao sair de Piraí do Sul com a mãe, Taider, em 1922. Passaram por São Jerônimo e adiante, oito léguas, atravessaram o rio Tibagi, indo Taider lecionar na Reserva do Apucaraninha. “Quando deu a febre forte, morreu quase toda a indiada e nós mudamos para São Jerônimo”, expressão de Alfredo, sem precisar o ano da mortandade, ainda na década de 20.
         Em 1935, padre Carlos Probst conhece a “Fazenda dos Índios”, entre os rios Apucaraninha e Apucarana Grande, que “se prolongava, passando o rio Tibagi, até cidade de São Jerônimo”, conforme anotou. Mas não era respeitada “pelos brancos que, entrando lá como intrusos, empurravam os índios cada vez mais para a margem do Tibagi onde, perto do Apucaraninha, se encontrava a sede da administração”.
         Já existia a vila de São Roque (mais tarde Tamarana) e tivera início a formação de fazendas. Com a região integrada à paróquia de Londrina, padre Probst se  empenhava na “pastoral das desobrigas”, reunindo moradores para os batizados, casamentos, comunhão, confissão, missa etc. Viajando em lombo de mula, estava ansioso na expectativa de conhecer os índios.
         Enorme a decepção ao vê-los. “Eu, leitor assíduo das obras de James Fenimore Cooper na infância, criara certa imagem sublime dessa raça privilegiada”, começa Probst a sua crônica. “Mas o meu ideal foi destruído na hora  em que avistei estes tipos degenerados que dormiam no seu rancho. Nada sobrava, na Fazenda dos Índios, da grandeza dos antigos donos do continente americano.”                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                           
         Conforme na Fundação Nacional do Índio (Funai), o Estado do Paraná e o SPI assinaram acordo em 1949, pelo qual a reserva de 80 mil hectares foi reduzida aos 5.574 atuais, onde estão 1.100 índios em dois grupos, dividindo o espaço em duas aldeias.   

Uma indenização
pela hidrelétrica


         Aproveitando o salto de 145 metros no Apucaraninha para gerar 6,3 megawatts, a Empresa Elétrica de Londrina construiu a usina em 1949, com acesso pela reserva indígena. Sucessora na hidrelétrica, a Copel assinou ajuste de conduta com o Ministério Público no final de 2006, envolvendo o pagamento R$ 14 milhões à comunidade indígena.
         Efetuou-se o pagamento em uma parcela de 20% do total e o restante em cinco prestações anuais, pagas desde 2007.  Conforme a empresa, trata-se de “indenização pelos passivos ambientais, sociais, culturais e morais” decorrentes da construção da hidrelétrica e sua geração”. E condicionou-se investir o valor em ações de sustentabilidade social e ambiental das famílias,  discutidas previamente com a comunidade.







terça-feira, 10 de setembro de 2013

(6 de setembro de 2013 – Widson Schwartz.)  

A inigualável “fronteira urbana” onde o poder de atração continua.




            Pela ação fulminante no Norte do Paraná, os pioneiros mudaram em 20 anos a geografia do café no Brasil e instalaram aqui as bases do mais denso celeiro alimentar do país”, expôs Omar Mazzei Guimarães, presidente da Associação Rural de Londrina em 1967, tendo sido ele personagem. Referia-se ao modelo de pequenas e médias propriedades, que não impedia as culturas temporárias. A monocultura cafeeira ocorreu no pós-guerra.   Com a ocupação inteira da região cafeeira, em 1970, o Paraná evoluiu de apenas 49 municípios em 1940 para 288 (+ 487%). No período 1940-1970, a população do Estado saltou de 1,2 milhão para 6,9 milhões de pessoas (+ 475%).
            E do total, 51,3% ocupavam 67 mil km ² no norte/noroeste, apenas um terço da superfície estadual.        
         Aonde “500 mil colonos de muitas nacionalidades estabeleceram, em poucos anos, uma das mais ricas zonas cafeicultoras do mundo”, Londrina se converteu na inigualável  “fronteira urbana”. A rápida povoação é o tema da reportagem de Harold Martin publicada em 1952 pelo The Saturday Evening Post  (“O Correio de Sábado à Noite”), o semanário de maior circulação nos Estados Unidos à época. Na Terra que Cheira a Dinheiro o título da reportagem Martin viu semelhança com a marcha para o oeste americano.
            E Londrina caracterizava a “fronteira urbana cujo poder de atração não cessaria”, em se usando, por analogia, o conceito de Claude Fohlen sobre cidades a partir da Lei do Homestead (a propriedade familiar), em 1862, que determinou a ocupação do far-west dos Estados Unidos em menos de cinquenta anos.
         Com 84 anos de fundação e 79 do município, Londrina tem 537 mil habitantes, 97,4% urbanos, quarta maior população ao sul do país. À exceção das cidades projetadas para serem capitais, construídas com o dinheiro público, nenhuma outra cresceu tanto e se modernizou igual a Londrina no mesmo tempo.
         Apesar de grandes perdas no período mais recente de 25 anos com a sucessão de péssimos prefeitos, Londrina cresce. É o segundo município do Paraná, pelo conjunto de fatores, com produto interno bruto (PIB) de R$ 9,9 bilhões em 2010 e renda per capita de R$ 19.612. Em desenvolvimento humano (IDH), 0,778, é o sexto no Estado. Orçamento da Prefeitura: R$ 1,2 bilhão, para 2013. Com 1.656 km², é o quinto município paranaense em extensão.    

“Filha de Londres
e capital do café”

            A Companhia de Terras Norte do Paraná (CTNP), do grupo de investidores ingleses liderados por Simon Joseph Fraser, lorde Lovat, compra 515 mil alqueires de concessionários que mantinham áreas para reserva de valor e de posseiros. Com a titulação definitiva pelo Estado, funda o Patrimônio Três Bocas, em 1929.     
            Muda-se o nome do patrimônio, em 1932, para  Londrina, como as filhas de Londres, sugestão do único sócio brasileiro e então presidente da Companhia, o advogado João Sampaio.  Percalços no início: a recessão mundial causada pela quebra da Bolsa de Nova York em 1929 e no Brasil, as revoluções de 1930 e 32. Instala-se o município em 10 de dezembro de 1934, sendo prefeito o ponta-grossense Joaquim Vicente de Castro, enviado da capital. Executivos da colonização: Arthur Thomas e Willie Davids, a seguir o primeiro prefeito eleito, em 1935.
             Na segunda metade da década, a febre amarela silvestre, a malária e a febre tifóide matam dezenas de pioneiros. De positivo, a inauguração da ferrovia em 1935 viera permitir a exportação agrícola, melhorando a renda. 
            No pós-guerra, a valorização do café determina a ampliação do plantio além da área da CTNP e Londrina passa a ser polo de toda a região cafeeira do Paraná: 71 mil km². Em 1952, ocupa o 15.º lugar em arrecadação de impostos entre os municípios brasileiros incluindo sete capitais. Diariamente, chegam e partem 10 mil pessoas em 100 aviões e 260 ônibus.

            Surgira a nova “capital do café”.

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

(30 de agosto de 2913 – Widson Schwartz.)     

Três Bocas norteou a fundação de Londrina






            A margem esquerda do Tibagi tem 60 quilômetros no município de Londrina e não está livre da degradação. Há, porém, remanescentes da mata ciliar original e o rio desponta pelo volume, as corredeiras, a divisão por ilhas. Em determinadas épocas do ano, serpenteia entre a brancura do trigo ou o amarelo da soja em maturação, que contrastam com o verde de pequenas reservas florestais.
            Nas imediações da foz do Ribeirão Três Bocas, a 20 quilômetros da cidade, trinta hectares estão declarados de utilidade pública para o futuro Parque Municipal do Tibagi,  projeto de 2003, já completando 10 anos sem sair do papel. Os afluentes principais do Tibagi no município são os ribeirões Apertados, Taquara e Três Três Bocas. E o Rio Apucaraninha, marcando a divisa com Tamarana.
            Mas o Três Bocas, paralelamente a seus encantos, norteou os que vieram dar a partida à colonização do Norte Novo, os britishies – britânicos, como os escoceses liderados por lorde Lovat preferiam ser chamados, em vez de ingleses. E se relaciona à povoação e ao sentimento de famílias que ainda o encontraram na plenitude.
            A ferrovia e a estrada de automotores de Jataí a Londrina, projetadas pelos britânicos, acompanharam o “Velho Picadão Três Bocas”, assim conhecido por situar-se na bacia esquerda do ribeirão. Fora aberto em 1927 pela turma do comissário de terras Joaquim Palhano, “um picadão escuro, barrento, cheio de tocos e buracos”, relatou George Craig Smith, integrante da expedição que o percorreu em 21 de agosto de 1929 e fundou o Patrimônio Três Bocas, origem de Londrina.
            A data de fundação oficializada pelo Museu Histórico é 21 de agosto de 1929 ao entardecer, segundo a memória de Smith. Mas, pelo que anotou outro integrante da expedição, o alemão Erwin Frölich, foi na manhã de 22 de agosto, por volta das 10 horas. O engenheiro russo Alexandre Razgulaeff localizou o marco e determinou a abertura da primeira clareira na floresta, onde seria o prieiohoel e o almoxarifado da colonizadora.
            Na margem esquerda do Tibagi, Londrina surgiria também à esquerda do Três Bocas, que, logo,seria mencionado numa história de liberdade: 13 famílias russas fugitivas do comunismo se estabeleceram à margem do ribeirão, em 1935. Estavam refugiadas na Índia e para trazê-las, a Liga das Nações comprou lotes de cinco alqueires da Companhia de Terras Norte do Paraná, que designou um funcionário russo, Vladimir Revensky, para recebê-los..
         Membro de uma daquelas famílias, Miguel Polskih recordou terem encontrado a mata virgem, por onde transitavam raposas, onças e outros bichos, que rondavam os ranchos. E muito peixe. Por situar-se no limite ao sul, o clima relativamente frio era impróprio ao café, mas excelente para a saúde dos imigrantes, que progrediram com outras culturas.
         Acima de tudo, aquele mundo verde lhes parecia um prêmio à determinação de terem buscado a liberdade, afirmariam.

Parque ecológico ao
redor da hidrelétrica
        
            Da nascente à foz do  ribeirão Três Bocas a linha reta é de 42 quilômetros,  mas a extensão pela sinuosidade é desconhecida. Há trechos de corredeiras e quedas e a Empresa Elétrica de Londrina construiu a Usina Três Bocas, em 1943.
         Geradora de 440 kilowatts, encampada e desativada pela Copel, atualmente compõe o Parque Ecológico Municipal Daisaku Ikeda, nome de um filósofo budista japonês. Está em Londrina a maior comunidade nipo-brasileira do Paraná. A barragem encontra-se restaurada, com a passarela sobre as comportas pela qual se transpõe o lago. E quem subir no mirante, terá uma visão ampla dos arredores. 
         A 12 quilômetros da cidade, por rodovia asfaltada, o parque tem 51 alqueires nas duas margens do ribeirão, com remanescentes da floresta primitiva. Ali são encontradas 96 espécies de aves e 12 de mamíferos.


domingo, 25 de agosto de 2013

(23 de agosto de 2013 – Widson Schwartz.)     





Tragédia indígena antes de Ibiporã, a terra bonita





            Na margem esquerda, em área do atual município de Ibiporã, existiu o Aldeamento de São Pedro de Alcântara, regulamentado pelo Império e fundado em 1855 sob orientação do senador João da Silva Machado, o Barão de Antonina, com a finalidade de cercear os índios. Em frente, na margem direita, estava a Colônia Militar de Jataí, também por iniciativa do Barão.
            No alto da colina e a uma distância da beira do Tibagi, o aldeamento era quase  imune à malária, mas os índios não escapavam da gripe, sarampo e alcoolismo, males dos “civilizados”. Em 1893, no mais amplo relatório de frei Timóteo, consta que os índios haviam assimiladoos vícios mais baixosdos colonizadores: “a ociosidade e a embriaguez”.
            O missionário afirma que tinha vistomorrerem mais de dois milhares”. E não havia “remédio para se obstar semelhante desordem”, razão de seu pessimismo quanto ao futuro: “E penso que poucos escapam por muito tempo.” O aldeamento se encontrava em  decadência e frei Timóteo, velho e frustrado, logo morreria.
            Ibiporã vem do tupi-guarani e significa terra bonita, referência à cidade que o engenheiro Alexandre Beltrão fundou em 1935, distante do rio, no km 195 da Estrada de Ferro São Paulo-Paraná, cuja estação foi inaugurada em 15 de julho de 1936.
            Situada no imóvel Jacutinga, concessão do governo estadual que a empresa de Beltrão dividiu em pequenos lotes, Ibiporã cresceu rapidamente, impulsionada pela  cafeicultura. Criou-se em 10 de outubro de 1947 o município, instalado em 8 de novembro,  área desmembrada de Sertanópolis. Com 298 km², Ibiporã tem hoje 48.190 habitantes, 95% urbanos. Produto interno bruto: 903 milhões de reais em 2010; renda per capita, R$ 18.740

São Pedro de Alcântara
e o futuro que se perdeu

            Com 12 escravos e talvez uma dezena de índios, frei Timóteo de Castelnuovo funda o aldeamento em 17 de março de 1855, em “lugar pitoresco, alto e sadio, sem par na Província”, conforme relatou. Frei Timóteo, pseudônimo do capuchinho italiano Domingos Antônio Luciani, nascido em Castelnuovo-Magra. Tinha 41 anos ao chegar.
            São Pedro de Alcântara se transforma em comunidade agrícola que comercializa excedentes e renda aos habitantes proporcionalmente ao que produzem em parcelas. Atinge a maior população em 1876, com 1.487 moradores. A principal fonte histórica é o livro Pai dos Coroados, biografia de Timóteo escrita por frei Casimiro Maria de Orleans – 1959.
            O aldeamento estendia-se por seis léguas  – ou 37,2 quilômetros – margeando o rio; e da margem para dentro, três léguasou 18,6 quilômetros. Em 1864, os coroados vendem  90 barris de aguardente, 60 arrobas de açúcar, 300 cargueiros de milho e 2.170 litros de feijão. Valor: 1 (um) conto e 760 mil réis. Os caioás têm participação menor.
            De 1876 para 1880, os habitantes diminuem de 1.487 para 764, muitos coroados tinham ido embora e caioás haviam sidodizimados pela varíola”. Frei Timóteo relacionou 134 “portugueses e mistos”; 43 africanos, que classifica de semilibertos; 210 coroados; 191 caioás  e 185 guaranis.   
             Com aterra fertilíssima e matas tropicais cortadas de grandes rios, São Pedro de Alcântara poderia ser um dos lugares mais importantes do Brasil”, segundo frei Timóteo. Ali, a abertura do Norte do Paraná seria antecipada, se não houvesse o desinteresse governamental. O Império e a Província intensificaram a colonização com europeus em Curitiba e nos Campos Gerais e abandonaram São Pedro de Alcântara e Jataí.

            Isoladas de comunicações, as duas comunidades  no sertão não eram estratégicas após a Guerra do Paraguai. Frei Timóteo morre em 1895 e é sepultado em Jataí. Em 1909, despede-se o último pároco no aldeamento. Por volta de 1923, o comissário de terras Mábio Palhano informa que a malária e a tuberculose mataram quase todos os índios remanescentes.