segunda-feira, 19 de agosto de 2013

(16 de agosto de 2013 – Widson Schwartz.)





A malária deslocou Primeiro de Maio




            Acima da foz do Tibagi pela margem esquerda (rio acima), Primeiro de Maio tem a origem numa parte da Colônia Limoeiro concedida pelo Estado à empresa Corain & Cia. Em 1919, a primeira iniciativa com a finalidade de uma povoação planejada no Norte Novo paranaense. Entre os rios rios Paranapanema e Tibagi e os ribeirões Bonito e Biguá, a divisão em pequenos lotes rurais se destinou a paulistas e mineiros de Conceição do Monte Alegre (SP)
            Mas o patrimônio (ou vila), sede da colônia, seria deslocado para o espigão, por causa da malária.
            Obedecendo ao projeto inicial, o engenheiro francês Denis Morin inicia a demarcação do lotamento rural e da futura vila em 1.º de maio de 1919. E põe o nome: Colônia Primeiro de Maio, alusivo também ao Dia do Trabalho, que já se comemorava na exterior. Os irmãos Francisco e Nicolau Silowski, austríacos, serão os primeiros a ocupar lotes rurais, em 1920.  Atravessava-se o Paranapanema em canoas e pelo Tibagi chegava-se à barra  do Ribeirão Jacu. 
            A malária põe em fuga quase todos os moradores na sede da Colônia Primeiro de Maio. Em1927, “a vila está morrendo na beira do Tibagi...”
            Só em 1936 define-se lugar salubre, no espigão entre os ribeirões Limoeiro e Jacu,  para se transferir a futura cidade. Iniciativa de José Corrêa Porto de Abreu, que compra a área, derruba a mata e dá o início. Em 10 de abril de 1936, o interventor no Estado, Manoel  Ribas, cria o distrito Vila Primeiro de Maio, no município de Sertanópolis. A primeira rua ta recebe o número Onze. E as outra também serão numeradas, para se evitar que políticos oportunistas ponham nomes que lhes convenham, relata João Dias Ayres no livro Portal da Esperança, crônicas do anteontem, baseado na memória de contemporâneos.
            Desmembrado de Sertanópolis, instalou-se o município de Primeiro de Maio em 17 de dezembro de 1952. Primeiro prefeito: José Corrêa Porto de Abreu. A transição econômica do café para a agricultura mecanizada se faz na década de 70. Em 1975, começa a formação do reservatório da Hidrelétrica Capivara, que inundará 14.150 alqueires em 11 municípios paranaenses. Primeiro de Maio, o mais atingido: 4.400 alqueires.
            A agricultura perde ótimas terras e o panorama é alterado em grande parte do município, surgindo até ilhas. A Paranatur constrói o terminal turístico na represa. Com 441 km², Primeiro de Maio tem hoje 10.840 habitantes e o produto interno bruto (PIB) chegou a 141 milhões de reais em 2010. Renda per capita: R$ 13.008.


Sertanópolis, o primeiro
município no Norte Novo
           
            Sertanópolis, “a cidade do sertão”, fundada posteriormente a Primeiro de Maio, se tornou a primeira colonização regular na margem esquerda do Tibagi, na gleba de 50 mil hectares concedida pelo Estado a Leopoldo de Paula Vieira.
            Abriu-se a clareira de quatro alqueires destinados ao patrimônio em 1.º de dezembro de 1924  e a 1.º de março de 1925, os agrimensores Manuel Rabello Loureiro e Ludovico Surjus demarcaram a praça, a 200 metros da margem esquerda do ribeirão Tabocas e a uma distância do rio Tibagi, longe dos focos de malária. Com 30 casas de tábua e 60 de palmito, eleva-se a distrito judiciário em 1928. E será a primeira paróquia e o primeiro município no Norte Novo. 
            O padre Jonas Vaz dos Santos instala a paróquia, em 16 de junho de 1929, e o município é criado em 10 de abril de 1929. Primeiro prefeito: Luiz Deliberador, eleito em 14 de julho. Rebaixado a distrito de Jataí, em maio de 1932, Sertanópolis volta a ser município em 6 de junho de 1934. A exemplo dos outros no Norte Novo, sua economia baseou-se no café por longo tempo, até a mudança para a agricultura mecanizada — soja, trigo e milho, na década de 70. Atualidade do município: 503 km² e 18.130 habitantes. Produto Interno Bruto (PIB): 283,5 milhões de reais, em 2010. Renda anual por habitante: R$ 18.131 reais.        


segunda-feira, 12 de agosto de 2013

(8 de agosto de 2013 – Widson Schwartz.)





Jataizinho, marco de transformações.





            A origem de Jataizinho foi a Colônia Militar do Jataí, estabelecida em 10 de agosto de 1855, no fim da picada que o Barão de Antonina mandou abrir pelo sertão do Tibagi até o ponto mais navegável do rio. São mencionadas duas finalidades iniciais: 1 – entreposto de transporte até Mato Grosso pela interligação dos rios Tibagi, Paranapanema, Ivinhema e Brilhante; 2 – forçar os índios ao confinamento e permitir a colonização.
            Veio a ser estratégica durante a Guerra do Paraguai, que começou em 1864 com a invasão de Mato Grosso. Jataí, paragem de tropas brasileiras com destino às frentes de combate. A guerra termina em 1870 e a Colônia é elevada a freguesia em 12 de abril de 1872, sendo padroeira Nossa Senhora da Conceição.       
            O nome é o de uma árvore majestosa: jataí, também conhecida por jatobá. Após a guerra, a comunidade entra em decadência e com a República perde completamente o caráter. Em 1923 o comissário de terras Mábio Palhano relata que a Vila de Jataí tem apenas um estabelecimento comercial e suas poucas casas, todas de taipa, serão desmanchadas por ordem da autoridade sanitária, a fim de se erradicar o transmissor da doença de chagas.
            Mas, em 1929, o início da colonização de Londrina, na margem esquerda do Tibagi, determina uma transformação: para ter o Estado próximo do empreendimento, o governador Afonso Alves de Camargo cria, em 14 de março de 1929, o município de Jataí, que abrange  os 515 mil alqueires a serem vendidos pela Companhia de Terras Norte do Paraná. Sede municipal e suporte de serviços da frente pioneira, Jataí progride social e economicamente.   
            Instala-se a comarca em 9 de julho de 1932 e a estação ferroviária é inaugurada em 5 de maio. Os pioneiros rumo ao Norte Novo desembarcam do trem e seguem de jardineira até Londrina; a travessia do rio é por balsa. A ponte ferroviária no rio, com 294 metros e 3,30 metros de largura, fica pronta em 1935, inaugurada com o tráfego de trens. Veículos automotores continuarão a depender da balsa  até que seja construída a ponte  rodoviária, com 540 metros, na segunda metedade da década de 40.  
            O fluxo de gente cada vez maior para o Norte Novo, a emancipação de Londrina (1934) e a incidência de malária interrompem o crescimento de Jataí, que ganha a fama de “cidade maleitosa”. Após as cheias do Tibagi, os alagados nas margens dos afluentes eram focos de larvas do transmissor da malária, vulgarmente conhecida por maleita.  Conforme o médico contemporâneo João Dias Ayres, “a região era malarígena, e a sua população vítima de epidemias que se prolongavam de uma a outra estação chuvosa”.
            Não havia DDT (o inseticida), nem o Serviço Nacional de Combate à Malária e o  sanitarista Júlio Moreira, designado pelo interventor no Estado, Manoel Ribas, sugeriu “simplesmente que o governo mudasse a cidade para longe do rio Tibagi”. Proposta não aceita.

O diminutivo
que incomoda

            Em 30 de dezembro de 1943, extingue-se o município de Jataí. O nome é mudado para Jataizinho, agora distrito de Assaí. A mudança de nome se deveu à precedência de Jataí em Goiás. 
            Numa “reviravolta”, é criado em 10 de outubro de 1947 o município de Jataizinho. Em 1955, numa tentativa de extirpar o diminutivo, comemora-se o centenário do lugar com o nome Jataí de Alcântara, extraoficialmente, evocando o imperador Pedro de Alcântara (D. Pedro II), associado também ao aldeamento indígena que existiu na margem esquerda do rio. Não houve força política para oficializá-lo e até hoje há quem queira a mudança.

            Atualidade: na composição do PIB – R$ 111,9 milhões em 2010 – as contribuições dos serviços e da indústria superam a agropecuária. Entre os menores municípios, Jataizinho tem 161,9 km² e 11.958 habitantes, um dos poucos no Norte Velho que aumentou a população (+ 8,8%) desde 1970. Renda per capita baixa: R$ 9.443,00. 

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

(1.º de agosto de 2013 – Widson Schwartz.)     


Baixo Tibagi perdeu 
beleza e cerâmicas





            Desapareceram a  flora e a fauna exuberantes encontradas pela expedição dos irmãos Borba no baixo Tibagi em 1876; o rio, hoje, é poluído por esgoto de chácaras e o agrotóxico da agricultura mecanizada. Na margem direita, abaixo de Jataizinho, Rancho Alegre (168 km² e 4.190 habitantes) e Sertaneja (446 km² e 6.520 habitantes) mudaram a economia do café e do algodão para a soja, trigo e milho principalmente.
            O Consórcio Intermunicipal para a Proteção da Bacia do Tibagi – Copati – vem coordenando o plantio de essências, mas ainda não se formaram matas ciliares protetoras. Há períodos de água suja, barrenta, consequência das enxurradas que conduzem o solo de áreas agrícolas para dentro do rio.
            Houve, também o alagamento pelo reservatório  da Hidrelétrica Capivara, que descaracterizou a foz e inviabilizou a continuidade de muitas olarias e cerâmicas por falta de argila.  
            Olarias e cerâmicas têm história no baixo Tibagi, onde o perímetro urbano de Jataizinho ocupa o imóvel antigamente conhecido por Olaria Velha, titulado pelo presidente da Província em 1873. Situava-se no “rocio [roça abandonada] da Colônia Militar”. Em 1929, o escocês Ian Fraser constrói, na barranca do rio, a olaria da Companhia Territorial Maxwell, empresa com interesse imobiliário em Jataí, que visava a um próximo mercado de materiais com a fundação de Londrina naquele ano.
            Natural de Pirassununga (SP), descendente de alemães, Dionísio Striquer arrenda a cerâmica Maxwell em 1933, limitando-se a produzir telhas “batidas a mão”. Em 1937, chega Antônio Vialta, um espanhol que passa a produzir tijolos.
            Desenvolvendo-se Londrina e outras cidades no Norte Novo, a indústria cerâmica de Jataizinho dá sucessivos saltos, chegando à melhor fase: a década de 70, com o Banco Nacional de Habitação (BNH), que financia casas populares e o saneamento básico. “Jataizinho, a capital nacional das cerâmicas”, eis um tópico na história. Já eram 35 produzindo telhas, tijolos e manilhas, com mercados no Paraná e outros Estados.
            Participante daquela evolução, o advogado Albino Striquer expôs dois conceitos: olaria, que significa a produção um tanto artesanal; cerâmica, já usando máquinas, tem caráter industrial. Em Jataizinho, as olarias, que faziam tijolos maciços, compraram máquinas e se transformaram em cerâmicas, produzindo tijolos furados.
            Sucedeu o declínio com a recessão econômica nos anos 80, a chamada “década perdida”. A inflação anual de 100% entre 1980 e 82 chegou a 200% em 83. E atingiria 1.700% no final da década. Vieram os planos econômicos, cessaram os investimentos e  quem estava com dinheiro punha na poupança. A produção das cerâmicas de Jataizinho tinha evoluído de quatro milhões de peças/mês e chegado à superoferta de 12 milhões. O excedente fez o preço do milheiro no mercado cair para a metade do custo de produção em 1983.   
            Desativa-se o BNH em 1986, seguindo-se o fechamento de muitas cerâmicas, entre as quais a Bela Vista, da família Striquer. De 35 cerâmicas em Jataizinho na década de 70, restam sete atualmente.

Inundação chegou
a 14.150 alqueires
           
             
            Estima-se que dezenas de olarias e cerâmicas cessaram atividade no baixo Tibagi ao perdeem acesso à argila. A hidrelétrica Capivara, no Paranapanema, fechou as comportas em 20 de dezembro de 1975 e na margem paranaense 11 municípios tiveram áreas inundadas pelo reservatório, perfazendo 14.150 alqueires.
            Quanto mais perto da foz, mais se elevou o nível do Tibagi, cobrido reservas de argila (os “barreiros”) nas margens. As cerâmicas, em sua maioria, ficam sem  matéria-prima e cessam a produção.

            Em Jataizinho,  bem  acima da foz, restaram disponibilidades e a concessionária da hidrelétrica, por um acordo, permite o aproveitamento. Mas a extração supre só 50% das necessidades das cerâmicas; a outra metade vem de Sapopema, a 100 quilômetros.