quinta-feira, 6 de dezembro de 2012



A presença do Imperador e 
o fracassso da colonização  - Widson Schwartz



          Causou “a mais penosa impressão” a D. Pedro II – expressão de um dos jornais da corte – o malogro de grande parte da colonização envolvendo os russos-alemães do Volga, que chegaram aos Campos Gerais em 1878. Eram descendentes dos alemães que emigraram para Rússia no século anterior, durante o reinado de Catarina II, a Grande.
          Nascida em Stettin, na Alemanha, Sofia Anhalt-Zerbst casou-se com o herdeiro do trono russo, Pedro III, e assumiu o poder  em 1762, proclamada Catarina II, a Grande. Tinha 33 anos de idade. Tendo a obediência da guarda imperial, ela impediu a ascensão do marido, de quem estava separada, e governou até 1796, quando morreu. “Apaixonada no amor e na política, diplomata astuta e hábil comandante de guerra”, Catarina II conquistou territórios e estimulou a povoação com imigrantes. 
          Surgiu a República autônoma dos Alemães do Volga, no curso inferior do rio Volga, que seria suprimida em 1946, em consequência da Segunda Guerra Mundial.  A alemã Catarina II “foi a mais russa das mulheres de seu tempo”.
          Ponta Grossa recebe a maioria dos russos-alemães: 2.442. Eles constituem 615 famílias, distribuídas em 17 núcleos. Ao município de Palmeira chegam 213 famílias com 798 pessoas em seis núcleos. Lapa, o terceiro município destinado à etnia: 68 famílias com 291 pessoas, em três núcleos.
          Os números constam na História do Paraná por Romário Martins, totalizando 3.531 imigrantes. Ou 3.522 relacionados por José Cândido da Silva Muricy, no livro Viagem ao País dos Jesuítas. A vinda dos russos-alemães para o Brasil definira-se em 1876, informa Muricy. Os que chegaram aos Campos Gerais haviam-se  estabelecido inicialmente no Rio Grande do Sul, em Santa Maria da Boca do Monte. Em terras de boa qualidade, mas eles pediram transferência, motivo de controvérsia.  
          Em relatório de 1878 ao Conselho do Império, o presidente da Província, Rodrigo Otávio de Menezes, afirma que os russos-alemães não querem se adaptar e transmie péssimo conceito, tachando-os de “muito ignorantes, teimosos, indolentes, invejosos e desprovidos do sentimento de caridade, apesar de religiosos”. Não aceitam mudar os métodos agrícolas e os costumes e ainda pedem além das vantagens (gado, dinheiro, objetos de uso doméstico) já oferecidas pelo governo, alega o Presidente.
          Mas D. Pedro II, ao constatar pessoalmente, em maio de 1880, atribui o fracasso também à localização em  terras pobres. Pelos jornais, o caso chega ao Senado. “Extensa repercussão tiveram (…) as arguições no Parlamento sobre as decantadas compras de terras que determinaram o malogro da colonização nos Campos Gerais”, informou um dos jornais da corte. 
          Na década de 1890 a maioria dos russos-alemães já se retirou das colônias. Das 615 famílias em Ponta Grossa, ficaram 323. O país já é República. Em Palmeira e Lapa também restou a minoria, muitos retornaram ao país de origem. Os que permaneceram na região dedicaram-se a outras atividades, principalmente ao transporte de cargas em carroças, entre Ponta Grossa e Curitiba.
          O ministro de Agricultura do Império, Cansanção de Sinimbu, determinara a compra das terras impróprias, que pertenciam a um parente de Jesuíno Marcondes, informou o jornal Cruzeiro. O presidente da Província declarou que havia alertado o Ministro sobre “a imprestabilidade” do solo e a “incúria de tal aquisição”. Por isso, D. Pedro II cancelou o decreto que concederia o título de barão a Jesuíno Marcondes, sob suspeita de ter influência no mau negócio. 
O Imperador 
e a imprensa
          Nos Campos Gerais, D. Pedro II permanece seis dias e percorre 70 léguas, em maio de 1880. Integram a comitiva imperial correspondentes da Revista Ilustrada, Eco do Paraná e o 19 de Dezembro, editados em Curitiba; da Gazeta de Notícias, Cruzeiro e Jornal do Comércio, do Rio de Janeiro. Os jornalistas serviam-se das linhas telegráficas e de malas postais. É o tema do livro D. Pedro II na Província do Paraná, de David Carneiro. Publicado em 1943, teve uma reedição em fascículos, pela Gazeta do Povo, em 2003. O historiador observa que o conteúdo “reflete (…) a grandeza e as fraquezas do povo em formação política ebuliente, incapaz ainda (…) de mostrar uma conduta firme”. 

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Rio Iapó
Castro - PR


Fazenda Capão Alto



Rio Iapó
Castro - PR



Ponte Rio Iapó
Castro - PR

O Imperador e seu “infrene
galopar” nos Campos Gerais - Widson Schwatz



          Depois de atravessar o rio Tibagi pela ponte, a caravana de D. Pedro II é recebida por 500 cavaleiros a uma légua de Ponta Grossa, em 26 de maio de 1880. Conforme  O 19 de Dezembro, os “augustos viajantes” entraram na cidade às 18 horas; até às 20h30, em “um coreto ricamente levantado no pátio da matriz, fez-se ouvir uma bem concertada banda de música, notando-se grande entusiasmo (…) entre os habitantes”. O Imperador e a Imperatriz são hóspedes do major Domingos Ferreira Pinto.
          Observando que “a criação de gado vacum“, cavalar e muar (…) faz a riqueza dos fazendeiros ali residentes”, o jornal sugere que “já é tempo de se criar, na região propriamente dita dos  Campos Gerais, uma companhia pastoril, que não poderia deixar de dar bons resultados”.  
           Em regozijo à visita de Pedro II, fazendeiros libertam escravos e o major Domingos, ao despedir-se de Sua Majestade, proclama: “Libertei todos os meus e peço a Vossa Majestade o favor de lhes entregar as cartas de liberdade”. Eram sete os cativos.  O gesto muito impressionou, pois o major tinha pouca escolaridade. De volta à corte, o Imperador não quis nomeá-lo Oficial da Ordem da Rosa. “Isso é pouco para esse benemérito, faça-o barão”, disse o Imperador ao ministro com quem despachava. “Mas é quase um iletrado”, contestou o ministro. “Não será o primeiro, e este é muito digno. Mande-me o decreto fazendo-o Barão de Guaraúna”, ordenou o Imperador. E concedeu o título, em 31 de agosto de 1880.
          Uma “viagem vertiginosa”, informou a Gazeta de Notícias sobre as andanças de D. Pedro II nos Campos Gerais: acidentes, cansaço e a incrível disposição do Imperador, que, “com sua prosa de forte, não tem parado no seu galopar infrene de quinze léguas por dia”.
          Os acompanhantes, entre os quais o presidente da Província, Rodrigo Otávio de Menezes, chegaram exauridos a Ponta Grossa. Cavalos mortos e extropiados, carros partidos, informa o jornal. No dia seguinte, em excursão às colônias, o carro de Suas Majestades quase tomba, inutilizando dois cavalos; a Imperatriz “sofre grande incômodo” e regressa. Já o Imperador monta a cavalo e prossegue, deixando para trás o resto da comitiva. Os “carros” mencionados eram as carroças diferenciadas, geralmente de dois lugares. Denominavam-se cupê, com a cabine fechada; caleça, de capota conversível; berlinda, um pouco maior e capota fixa.
          Ponta Grossa evoluiu de uma paragem de tropeiros “no começo do sertão do Tibagi”, em se usando a expressão de Rocha Pombo, e foi elevada a freguesia pelo alvará imperial de 15 de setembro de 1823. “Freguesia da Província de São Paulo no distrito da Vila de Castro”, talvez a primeira anotação histórica resumida.  Chamava-se Freguesia da Estrela, estabelecida sob invocação de Sant'Ana, em  área doada pelo sargento-mor Miguel Rocha Ferreira Carvalhaes. No centro construiu-se a igreja. Em 1842 a Freguesia tem 3.200 habitantes, famílias de agricultores e pecuaristas.
          Segundo o folclore, veio a se chamar Ponta Grossa pela característica do lugar: “encostado naquele capão que tem a ponta grossa”. Elevou-se a município em 1855. Mais tarde, no período de apenas um ano, 1871-1872, chamou-se Pitangui.

Encontro com os
russos-alemães

          Além dos fazendeiros ricos, havia em Palmeira e Ponta Grossa  pequenas colônias de imigrantes europeus e o Imperador “indignou-se” ao constatar o fracasso dos que receberam terras improdutivas. “Causou lástima ver o estado desgraçado em que se encontra a colonização no Paraná. Se por um lado existem colônias com terras boas, cujos moradores estão contentes, por outro  há núcleos abandonados”, informou um jornal da corte, referindo-se aos russos-alemães no Capão da Anta, em Palmeira; e em Uvaranas, Ponta Grossa. No Capão, o Imperador pediu a um soldado que revolvesse a terra com a espada. E comentou: “Isto não dá nem capim. Isto é cascalho não é terra”. E concluiu: “No Volga, esses pobres homens tinham muito melhores terras, não precisavam vir tão longe”.   

segunda-feira, 19 de novembro de 2012


Terra Nova - Pico Agudo
Foz do Rio Apucaraninha

Panorama da Serrinha
encantou D.Pedro II a
caminho de Palmeira  -  Widson Schwartz

            O panorama nas cercanias da nascente do rio Tibagi fascinou o imperador Pedro II, aonde “a terra parece uma esmeralda sem fim e o céu uma safira infinita”: o cume da Serrinha. Isto em 25 de maio de 1880.  Os adjetivos constam na reportagem do Jornal do Comércio, editado no Rio de Janeiro. Suas Majestades Imperiais, Pedro II e Teresa Cristina, permaneceram trinta minutos na Serrinha e o Imperador faz anotações, “extasiado ante a prodigiosa natureza da Província do Paraná”.
É onde começam os Campos Gerais, situados entre o curso superior do Tibagi e o Rio das Cinzas, na largura de 396 quilômetros de sudeste para nordeste. Em carruagens e a cavalo  a comitiva imperial seguia de Campo Largo a Palmeira, com passagem por São Luiz do Purunã, onde almoçou.
          Pelo roteiro da visita de D. Pedro II, Palmeira “é a primeira povoação que se encontra depois da Serrinha” e lá reside a Baronesa do Tibagi, de quem Suas Majestades serão hóspedes.
          O gentílico de quem nasce em Palmeira é palmeirense. Credita-se a origem da povoação a uma paragem de tropeiros no longo Caminho entre Viamão (RS) e  Sorocaba (SP), onde consolidou-se, em 1833, a Freguesia Nova, transferida das proximidades de Campo Largo pelo padre Antônio Duarte dos Passos. A área havia sido doada por famílias e passou a se denominar Palmeira, porque havia muita palmeira; segundo uma versão, o lugar era conhecido por Capão da Palmeira. Lei provincial criou o município em 1869, desmembrado de Ponta Grossa.
          “A viagem de Curitiba a Palmeira, através de extensos  pinheirais, que são as matas cerradas da frondosa araucária (...), foi realmente encantadora”, segundo Ernesto Matoso no livro Coisas do Meu Tempo. Descreve a guarda de honra, por mais de 200 cavaleiros, em sua maioria comerciantes da capital, vistosamente uniformizados. E atrás da guarda, carruagens cada vez em maior número, pelas adesões ao longo do caminho. O Jornal do Comércio informa que, uma légua antes de Palmeira,os animais do carro imperial foram substituídos por quatro cavalos brancos enfeitados com as cores nacionais, enviados pelo conselheiro Jesuíno Marcondes.
          O Paraná tinha apenas 150 mil habitantes quando recebeu D. Pedro II e nos Campos Gerais estavam os mais ricos fazendeiros. Suas Majestades imperiais chegam a Palmeira em 25 de maio de 1880, às 17 horas, hóspedes da  Baronesa do Tibagi. Chamava-se Cherubina Rosa Marcondes de Sá, viúva de José Caetano de Oliveira, Barão do Tibagi.
          Posteriormente à visita, o Imperador concederia a ela o título de Viscondessa do Tibagi, em reconhecimento à hospitalidade. Era mãe do palmeirense Jesuíno Marcondes, advogado que havia sido deputado à primeira Assembleia Legislativa Provincial, deputado federal, ministro da Agricultura, Comércio e Obras do Império (1864-1865) e vice-presidente da Província. Recebeu do Império o título de conselheiro.   
                                                     Uma parada no Tibagi     
            Viajando de Palmeira a Ponta Grossa, no dia 26 de maio de 1880, D. Pedro II e seus acompanhantes chegam ao rio Tibagi. “Ponta Grossa, situada num dos pontos mais elevados dos Campos Gerais, apresenta-se graciosa ao viajante desde à distância de 20 quilômetros”, informa o Jornal do Comércio.
          Conforme a notícia, antes de chegar à cidade Suas Majestades “pararam por algum tempo sobre a ponte do rio Tibagi, para admirar o lindo panorama que dali se descortina. Tem a ponte cerca de 500 palmos de comprimento e é toda de madeira da Província”. Desde 1865 o governo provincial tinha o prospecto do rio pelas medições dos engenheiros Keller e, assim, o jornal acrescentou informações: “O Tibagi nasce na Serrinha e vai desembocar no Paranapanema, correndo (…) 528 quilômetros (…) mais ou menos”. 

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Pescador na ponte próximo ao aeroporto de Ponta Grossa

 Porto de areia em Ponta Grossa

No centro e ao norte                  
os rios da fertilidade - Widson Schwartz

          Acima da foz do Tibagi, o Paranapanema recebe o Itararé, que nasce na Serra do Paranapiacaba, ao sul de São Paulo, e da sua extensão, 300 quilômetros, a maior parte faz divisa com o norte do Paraná. Na margem paranaense, a bacia abrange 5.329 km², sendo maiores afluentes o Jaguaricatu e o Jaguariaíva. Ao desembocar no Paranapanema, tem 96 metros de largura.
          Itararé significa “pedra escavada” e corresponde à singularidade descrita no Vocabulário Tupi-Guarani Português (Éfeta Editora – 6.ª edição, 1998) organizado por Silveira Bueno: o rio desaparece da superfície e ressurge após percorrer quilômetros embaixo das rochas, no Estado de São Paulo. No município de Itararé, turistas podem ver o rio subterrâneo numa gruta. Já Salto do Itararé e Santana do Itararé são cidades paranaenses. 
          Outro afluente na margem esquerda (PR) do Paranapanema, o Rio das Cinzas tem a nascente no município de Jaguariaíva, centro-leste, e termina entre Itambaracá e Leopólis, no Norte Velho. Chega a ter profundidades acima de três metros e largura máxima de 198, na foz.
          A bacia do Cinzas abrange 9.766 km², não há registro da extensão total, provavelmente inferior a 300 quilômetros. Já se aproximando da foz, tem 240 quilômetros ao receber o Laranjinha, maior afluente, na margem esquerda. “Sertão do Laranjinha”, moda de viola de Tonico e Tinoco, refere-se ao rio Laranjinha. Conforme o depoimento de Tinoco em livro biográfico, é a história verídica de um desbravador que sobreviveu ao ataque de índios em lugar na margem do rio que, com o passar do tempo, se transformou em cidade, hoje Ribeirão do Pinhal.
          Já no Norte Novo, o Pirapó surge em Apucarana,  recebendo inicialmente os ribeirões do Campinho e do Lajeado, na margem direita. E vai desembocar no Paranapanema, em Itaguajé, onde se encontra a hidrelétrica de Taquaruçu. O maior afluente do Pirapó e o Bandeirantes do Norte, com a nascente em Arapongas e 106 quilômetros de comprimento.
          Existem 117 afluentes nos dois rios. Geralmente mencionados em conjunto, constituem a bacia de 5.132 km².
          Na década de 1920, a foz do Pirapó era referência para a transposição ferroviária do Paranapanema. Se a Companhia de Terras Norte do Paraná não mudasse o projeto, a colonização do Norte Novo começaria por ali.
          Os britânicos liderados pelo lorde Lovat constataram, na década de 1920, que os três rios eram os limites das terras mais férteis do mundo. Segundo o agrimensor contemporâneo Kepler Palhano, as expedições a serviço do grupo de Lovat recolheram amostras de solo a cada quilômetro. Enviadas a Londres, a análise revelou uma semelhança com o melhor adubo. Daí a fundação da Companhia de Terras Norte do Paraná, por eles.
          Em 1952, o repórter Harold Martin, dos Estados Unidos, concluiu que o Norte Novo paranaense havia “combinado as vigorosas incursões da corrida do ouro da Califórnia com a obstinada conquista das planícies do oeste americano”. Com o título “A terra que cheira a dinheiro”, Martin escreveu na revista The Saturday Evening Post, então com uma das maiores tiragens nos Estados Unidos.
                                                 Nomes vêm dos
                                                falares indígenas

          O tupi é a uniformização, pelos jesuítas, de vários dialetos indígenas e o guarani, dialeto do tupi. Tibagi vem do tupi-guarani e significa “Rio do Pouso” ou “Rio da Parada”
          Conforme Silveira Bueno, nem o tupi, nem o guarani tinham escrita, foram os missionários e exploradores que aprenderam, por necessidade de comunicação, “os falares dos indígenas e escreveram de acordo com os seus conhecimentos europeus dos sons”. Por isso existem diferenças de grafia “entre os escritos de missionários portugueses e espanhóis e muito mais ainda entre os de origem francesa ou alemã”.
          Um topônimo pode ter duas ou mais interpretações. Paraná ou paranã = rio grande ou rio caudaloso. Mas iguaçu também é rio grande. E Paranapanema = rio grande e inútil (pelo sufixo panema).  Ivaí = rio das frutas; Piquiri = rio dos piquiras ou dos peixinhos. Piquira = pequeno. Itararé = pedra escavada ou subterrâneo.
          Pirapó não está dicionarizado. Aproximações: pirapoã = peixe que empina; e Pirapora = lugar abundante em peixes.